Correio do Minho

Braga, terça-feira

A adrenalina das tradições dá cor ao nosso tempo ou não se vê?

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2016-04-20 às 06h00

José Hermínio Machado

Vou começar o meu artigo com uma citação do escritor J. Rentes de Carvalho, tomada do seu blogue «Tempo contado», para que o leitor entre mais depressa no espírito desta comunicação:

há uma adrenalina a correr nas veias de muita gente sobre as tradições, vejam-se estas em comunidades de praticantes (grupos, aldeias, regiões, instituições) ou em comunidades imaginárias (projectos, causas, territórios de afectos, espaços de opinião), quase sempre a partir de «realidades» ou «modos de vida» que se descrevem em acelerado desaparecimento. Tudo isto enquanto outra febre gerada por uma adrenalina contemporânea vai propondo ao debate público as mudanças mais radicais de estilo ou modo de vida pessoal e social. Vamos à citação, que também vale pela literariedade que a informa.

«Sempre se falou em excesso da experiência que os anos dão, do poço de sabedoria que cada idoso é, fatigam os casos das avós e tias sábias, que à lareira, no remanso de idílicos povoados, contam histórias do tempo em que se respeitavam as tradições, se ajudavam os vizinhos, se comiam saborosos jantares, preparadas com ingredientes de uma pureza que já não há, e segundo receitas conventuais passadas de geração para geração. Avesso e mal disposto, aí chegado acontece-me por vezes soltar um 'Porra!', perguntando-me então que gente é essa, ou de que paraísos tem conhecimento, pois por mais que olhe e espiolhe, no que encontro nada apercebo de bucolismo, nem de tal serenidade me falam os jornais ou mostram as televisões. De modo que, não sendo míope, nem fraco da cabeça, só abonado em anos, concluo que muito há que me escapa, e ao contrário do que dizem, pelo menos no meu caso a idade pouco me ensinou.»
(http://tempocontado.blogspot.pt)

Isto faz-me lembrar a história da velha e do lobo: corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação, eu não vi por aí velhinha nem velhão… E por este meio a velha ultrapassou as ameaças do lobo, ou seja, na minha intenção simbólica, a tradição venceu os apetites da sofreguidão da adrenalina contemporânea. Pois se o lobo tem um acumulado genético de predador, a velha tem um acumulado social de sabedoria, acontecendo então que a regulação desta necessidade biológica de saber «quem come quem» coloca em jogo a nossa complexidade de processos de ataque e defesa.

O que fazem as tradições ou o desejo delas neste jogo? Em que sentido se move de facto a contemporaneidade? A Convenção da Unesco de 2003 para a Salvaguarda do Património Imaterial, na progressão das recomendações já estabelecidas em 1972, perspectiva que vamos dispondo cada vez mais de uma capacidade efectiva de tirarmos partido da acumulação civilizacional que vamos tendo ao dispor, agora através de meios tecnológicos cada vez mais acessíveis. Na vida contemporânea nota-se também, a par da radicalidade de propostas de mudança, a existência de movimentos que garantem a pluralidade de visões e de práticas culturais e materiais que testemunham diferentes modos de desenvolvimento social.

As condições de desenvolvimento do nosso país asseguram também que as assimetrias regionais constituem um factor de diversidade, não obstante o poder globalizador da comunicação social e das indústrias de entretenimento. Todavia, também nesta globalização se evidenciam cada vez mais os desafios de descoberta e de partilha de práticas plurais, material e culturalmente diversificadas.

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