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A alegria de viver

Os amigos de Mariana (1ª parte)

A alegria de viver

Voz aos Escritores

2021-11-12 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Leio a «Alegria de viver», de Émile Zola, naquela passagem em que o cão sobe ao pescoço de Madame Chanteau, pleno de felicidade, como querendo abraçá-la. Os cães são assim, dão-se totalmente e sem reservas. Recordo uma pintura de Picasso, que vi há anos em Valência, com o mesmo título, e as referências a outro de Matisse, especular na intenção, propositadamente contraditório na exploração cromática. Porque escrevem e pintam os artistas um estado-sentimento tão importante nas nossas vidas, relacionando-o com o simples e natural ato de viver? Será pela consciência de que a vida se funda, quase sempre, na tristeza, e de que é necessário apagá-la com sublimações, sejam de sol ou de riso, ou de amor ilimitado? O que é, aliás, a alegria? Porque diferem a definição dicionarística, que a explica como sendo um sentimento de plenitude e de sublimação interior, da florescência poética e filosófica, que compara a alegria ao sol que fortifica as plantas, e que a expõe como sendo a própria vida vista através dos seus raios? É fácil compreender que, desta forma tão profundamente sentida, a alegria seja o fulcro da simpatia e do amor. É isso que nos diz Ramalho Ortigão nesta tão bela frase: «Sem a alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor», no que é acompanhado por Benjamim Franklin na não menos bela afirmação: «A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro».

Por ser avesso a tristezas e agarrar a alegria pelas orelhas, em todas as circunstâncias, mesmo as mais infelizes, tenho descoberto a minha pedra filosofal, tentando projetá-la no coração dos outros. Sinto, às vezes, ricochetes não muito positivos, ora por incapacidade emotiva dos recetores, ora por incapacidades mais pragmáticas, como a leitura de gestos e das expressões, ou, ainda, das finas e salutares ironias. Não sei se transformo tudo em ouro, que as figurações transformam até metais, mas sei, isso sim, que contribuo para a necessária simpatia e, por correlação empática, para a construção e compreensão do amor. Amar é alegrar-se. Alegro-me com a minha família, luto também os seus sonhos e motivo-a nos dias em que a dor ou a tristeza marcam a sua presença. Alegro-me, da mesma forma, com os amigos, dou-lhes a possível mão quando o que tem de ser acontece. E tento até alegrar-me com os que eventualmente não gostem de mim, que os há sempre, façamos o que façamos. A alegria é, neste sentido, o carimbo da bondade. Ser bom implica a reluzente alegria.

Sinto, em determinados momentos, que há alguma euforia sentimental, que decorre da profundidade dos acontecimentos ou de reações químicas que não consigo explicar. Nesses momentos, procuro nas escalas linguísticas nomes que deem conta de tal euforia e que adequem a gramática sentimental à gramática vocabular. Se me regozijo com alguém, com as conquistas escolares ou profissionais dos meus filhos, por exemplo, isso significa que sinto alegria e profundo orgulho naquilo que são capazes de fazer. De forma que não necessita de ser eufemística, as suas vitórias são também as minhas vitórias, uma muito provável consequência do conhecimento e do amor que lhes dei.

É, no entanto, na hora de toda a repescagem interior, nos momentos em que fecho os olhos e me projeto em todas as imagens e pensamentos, que me apercebo de que, no cimo da escala, me acena outra palavra, absolutamente resplandecente com os clarões da alegria. Refiro-me ao júbilo, máxima representação do contentamento, da alegria e da felicidade. Na normalidade da vida, não é fácil concentrarmo-nos em direção à nossa luz. O ruído é muito, as solicitações também, a concentração é, por vezes, impossível. A minha solução é simples: entro numa igreja, posiciono-me perante Jesus ou os santos da minha devoção e comungo com eles, regozijando-me, sentindo a máxima alegria, rejubilando. Agradeço a Deus por me fazer sentir assim e peço-lhe clarividência para os outros. Alegria, regozijo, júbilo. Três belíssimas palavras que devemos atualizar mais.

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