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A alucinação mediática do futebol português

Beco sem saída

Ideias

2015-02-20 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

A história do futebol português no último meio século pode ser resumida do seguinte modo: duas décadas e meia (1960-85) de supremacia do SL Benfica (9 Taças de Portugal, 16 Campeonatos Nacionais, 2 Ligas dos Campeões da UEFA) sucedidas por duas décadas e meia (1985 em diante) de hegemonia do FC Porto (11 Taças de Portugal, 19 Campeonatos Nacionais, 1 Taça UEFA, 1 Liga Europa, 1 Taça dos Clubes Campeões Europeus, 1 Liga dos Campeões da UEFA, 1 Supertaça Europeia, 2 Taças Intercontinentais).

Em termos absolutos, o FCP tem 74 títulos contra 73 do SLB, sendo que, em termos de palmarés, o do primeiro é maior no domínio internacional e o do segundo no plano nacional.
Essa realidade fáctica, todavia, nunca foi reconhecida ou espelhada pela nossa comunicação social em geral. Nela tem preponderado o tratamento dissimétrico de permanente exaltação do clube da águia e constante desmerecimento do clube do dragão.

É bem sabido que os meios de comunicação social fabricam largamente o universo em que nos movemos. O cientista político estadunidense Michael Parenti, aliás, no seu ensaio Inventando a realidade: a política dos meios de comunicação social, de 1986, afirmou que são eles que “estabelecem a agenda, definindo aquilo em que devemos acreditar e não acreditar, aceitar ou rejeitar”.

E também não se ignora que o chamado “mundo do futebol”, enquanto parte desse universo, é também, em grande medida, uma fabulação mediática.
Mas, claro, toda a invenção tem limites e qualquer narrativa sobre a realidade ou parte dela para ser persuasiva tem que se apoiar em factos reconhecidos.
Basta, todavia, prestar alguma atenção ao que é dito antes, durante e depois de um chamado “clássico” entre as equipas dos dois clubes para nos darmos conta da mistificação a que cronicamente se entrega a imprensa desportiva nacional, sobretudo a televisiva.

Exemplifico. Pré-match: nas tardes que antecedem o grande jogo são passadas imagens de jogos dos encontros entre SLB e FCP de épocas anteriores onde se destacam os golos marcados pelos avançados do primeiro e os golos sofridos pelas defesas do segundo, mesmo quando este último venceu; além disso, são feitas reportagens dos adeptos a chegar ao estádio em que os do SLB são apresentados como familiares que se reúnem para assistir pacificamente a um espetáculo desportivo e os do FCP são exibidos como hordas de provocadores arruaceiros.

Desenrolar do jogo: lance exatamente idêntico é percecionado como flagrante fora de jogo ou penálti inquestionável se o jogador vestir camisola azul e branca e como muito duvidoso ou de difícil ajuizamento para o árbitro se vestir camisola vermelha; jogador rasteirado é simulação se envergar de azul e branco e agressão passível de expulsão se envergar de vermelho.

Pós-match: se a vitória final coube ao FCP é quase certo que a notícia só será dada umas horas depois, lá pelo meio de um noticiário já de madrugada, mas se coube ao SLB, então o que quer que se esteja a ver é interrompido por um enervante “última hora”; se, em contrapartida o FCP foi derrotado, fazem-se programas especiais para discutir a crise e o fim do ciclo de primazia do clube e, ao invés, se foi o SLB que perdeu, faz-se um historial dos sucessos de Jorge Jesus e aventam-se hipóteses mirabolantes de estar a ser cobiçado para treinar os melhores clubes do futebol europeu.
Enfim, o futebol português foi, é e continuará muito provavelmente a ser uma mitomania mediática.

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