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A arte da extrapolação tecnológica

Beco sem saída

Ideias

2017-01-06 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Tipicamente, no final de cada ano surgem previsões de todo o género para o ano seguinte, nos meios de comunicação social, particularmente na imprensa escrita. O ido 2016 não foi exceção. Um dos géneros que sempre sigo com interesse é o das chamadas “antecipações tecnológicas”, neste caso para 2017.

Uso o termo mais genérico “antecipações” para recobrir duas formas (pelo menos) de prolepse em relação ao curso tecnológico: (a) as previsões (predictions), formuláveis em enunciado doxásticos disjuntivos do tipo “acredita-se que a tecnologia x ocorrerá-ou-não emergirá no ano y”; (b) as projeções (forecasts), expressáveis em enunciados doxásticos probabilísticos do tipo “acredita-se que há maior-ou-menor probabilidade da tecnologia x aparecer no ano y produzida pela organização z”. Como se percebe, a diferença entre previsões e projeções não é de natureza, mas de grau de especificação.

Todavia, o conceito de “antecipação tecnológica” pode ser encarado como ambíguo ou, noutra perspetiva, como densificável, isto é, como podendo receber sentidos vários. Assinalo aqui três. Em primeiro lugar, poderá servir para referir modificações em tecnologias existentes que se supõe que ocorrerão muito em breve. É o exercício que encontramos, por exemplo, na Techradar do passado dia 29 de dezembro, no artigo “Tech in 2017: 10 big things to look forward to in the New Year”, onde para além do iPhone 8 e do Surface Pro 5, se conjetura o aparecimento também em 2017 de novos e menos dispendiosos óculos de realidade virtual, da vulgarização dos chamados “wearables” ou da disseminação de dispositivos domóticos inteligentes pelos lares.

Mas poderá ser usado para denotar, em segundo lugar, a emergência de inovações tecnológicas mais improváveis. O New Statesman de 30 de dezembro, por exemplo, optou por esse enfoque, prognosticando audaciosamente que no ano em que acabámos de entrar existem francas probabilidades de virmos a dispor de robôs chefs nas nossas cozinhas, de baterias de carregamento instantâneo (ou quase) ou de detetores de notícias jornalísticas falsa.

E poderá ainda ser empregue para referir tecnologias especulativas, isto é, que têm probabilidades mínimas de vir a surgir no curto prazo, mas… Veja-se, a esse propósito, o artigo do The Guardian da última terça feira “From self-walking shoes to full-body Airblades, the amazing tech 2017 should deliver”, onde mais sob a forma de sã ilusão que de convicção informada se imagina, no limiar do possível, que talvez venhamos a dispor muito brevemente de secadores nas nossas casas de banho para o corpo inteiro, de sapatos que se automovem ou de um comprimido que, em segundos, elimina o efeito do álcool no nosso organismo.

Esta prática de protensão cognitiva tem história longa e talvez esteja mesmo enraizada numa propensão antropológica. Já que seja feita nas viragens de ano é, por certo, mais recente e mais difícil de entender no seu porquê.
Todavia, não nos podemos esquecer que o seu valor epistémico não alcandora à ciência certa, antes a uma espécie de arte expedita, pois o futuro é, por definição, indeterminado, imprevisível e, eo ipso, insondável. Para além disso, convém também não esquecer, como ensinou Michael Akeroyd, em “A practical example of Grue” (1991), parafraseando Nelson Goodman em Facto, Ficção e Previsão (1955), que o que conhecemos sobre o desenvolvimento de uma tecnologia pode revelar-se “regulático”, isto é, regular até um momento t, digamos o final de um ano, e errático, após esse momento.

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