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A Árvore da Vida

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A Árvore da Vida

Voz aos Escritores

2022-12-09 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there.
Yeats

Os poetas mais profundos têm este condão, o de nos transportarem para o imo sentimental. Leio Yeats e envolvo-me: meu amor, vê como cresce no teu coração a árvore sagrada. Simbolicamente, que árvore sagrada ascende no meu, nos nossos corações? Sem dúvida, a oliveira, metáfora da paz e da pureza, do sofrimento e do amor. É assim que vejo esta árvore, que a sinto, mais profundamente na Páscoa, momento anagógico de todos os cristãos. Curiosamente, no Génesis, as árvores não são denominadas, são hiperónimos de todas as suas discípulas, umas agradáveis aos olhos, de tipo ornamental, outras boas para alimento. A árvore da vida e do conhecimento, do bem e do mal, estão no centro do jardim, guias morais de toda a vivência humana. Contemplo não poucas vezes a natureza e procuro as sombras nos dias de calor intenso. Olho os choupos e as acácias, os plátanos e as tílias, os sobreiros e os eucaliptos, e recebo-os como meus irmãos na longa caminhada da vida. Do quintal, colho citrinos, dióspiros, fisális e maracujás, peras, maçãs e abrunhos, frutos que me alimentam o corpo e também a alma. Dos vendedores, recebo os pregões; dos poetas a impreterível poesia. Árvore verde, meu pensamento em ti se perde, diz Pessoa. Perde-se nele e em mim. Há uma oliveira no jardim da nossa casa, podada por mãos carinhosas, que este ano não deu fruto. Resultado das alterações climáticas, dirá alguém. Resultado da poda, sugerirá algum mais crítico. A haver desculpa, quem devemos desculpar: o divino ou o humano? Oliveira, árvore sagrada, o meu pensamento perde-se em mim. Sugeriram há tempos substituí-la por outra, talvez de fruto, talvez floral, mas não imagino na minha entrada um símbolo diferente. Poderia plantar no mesmo lugar uma figueira, igualzinha à figueira que tenho no quintal. Daria figos suculentos, tipo figo de mel, mas não veria pétalas vibrantes e atrairia comentários indiscretos da minha vizinhança. Figueira não, que traz Judas no tronco e traição na simbologia. Já sugeriram laranjeira, que dá flores e frutos de encantar, além de cheiros que preenchem as narinas. E a simbologia da flor da laranjeira, a pureza sempre sugerida, que faz dela uma árvore também sagrada. As folhas sempre verdes embelezariam o lugar. Mas alguém disse que não, que esta árvore é própria de quintais e de terrenos propícios. Procuro, ainda, solucionar a sugestão. Busco árvores da vida, que aumentem o meu interior e a minha visão do mundo. Eu não vejo aquela oliveira como toda a gente a vê, valorizo-a pelo impacto simbólico que tem em mim, não pelo seu fruto, que por acaso nem como. Terá alma a árvore em que penso, aquela alma em que os celtas que por aqui andaram acreditavam?
Há lá em baixo um freixo frondoso, pode muito bem ser de origem nórdica, a conectar um mundo de deuses e de humanos ciosos de poesia. Ficaria bem neste centro de jardim? Seja qual for, a árvore deste jardim será para mim a árvore da vida, simbolizará a dor e o sofrimento, a profundidade religiosa e o amor. Não preciso de pensar mais, será definitivamente a oliveira. Podada, crescerá com certeza de forma muito bela, dará flor e fruto. E dar-nos-á na Páscoa que se aproxima os ramos abençoados a solicitar amêndoas e a simbolizar amor.

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