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Braga, segunda-feira

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A árvore dos desejos – para quando o verão terminar!

Alguém ao seu lado...

A árvore dos desejos – para quando o verão terminar!

Escreve quem sabe

2020-06-16 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Esta árvore! Uma árvore recheada de tantas, tantas folhas pequeninas, verdes, rijas, prontas para crescer e abraçar o mundo. Refletem os primeiros raios da manhã, num eterno agradecimento ao sol, fonte de vida, para ela, é bom de ver! Em cada folha bafejei um desejo, um pequeno desejo de como tornar o meu mundo um mundo mais bonito. Não de árvores, florestas, rios e lagos, mar… tanto mar, nem de animais, mansos e bravos, lindos e feios, pequenos e grandes, rastejantes e voadores, submersos ou hibernados, não! Com tudo isto o meu mundo já é mesmo bonito. Tão bonito como o nascer e o pôr do sol, o arco-íris de todas as cores, a aurora boreal e as cores fantásticas do céu, que dos polos alguns ventos as trazem até nós! Não! Tudo isto já não cabe em cada folha pequenina e bem verde, da minha árvore dos desejos. Não cabe porque já não é desejo. Desejo! Desejo, … é tudo aquilo que eu gostaria que acontecesse e que ainda não tenho. Espera... não tenho? Claro que sim. Há uns dias, como vos contei, realizou-se o meu primeiro desejo. Depois, e também vos contei, realizou-se o meu segundo desejo, que também já não é desejo porque se realizou. E agora chegou o meu terceiro e último desejo! Pena que só vai acontecer depois do Verão... mas tem que acontecer!

Sabem? O que eu queria mesmo? Mesmo, mesmo? Eu queria mesmo... mesmo, era ir para a escola. A sério! Tenho saudades... muitas saudades... dos meus amigos, dos meus professores, das brincadeiras no recreio, das escorregadelas no chão duro do recreio, da bola de futebol. Eu sei que já não se lembram que eu estou no segundo ano... e que em setembro vou para o terceiro. Estou mesmo a ficar crescido! Mas... continuo na televisão, com as aulas da professora Isa, da professora Inês... E a ver os meus amigos da escola e a professora no computador. Não tem mesmo graça nenhuma. Mas eu sei que cada dia que passa é menos um dia que falta para chegar o dia de regressar à escola. E vai ainda uma confusão.... até já dizem que vamos continuar com o ensino à distância... e que vamos ter computadores (outra vez!!!), para os meninos e meninas que não têm ainda lá em casa. A ver se se entendem... Então não sabem que os computadores (ter ou não ter) não mudam nada?

Os computadores são como as canas de pescar... podemos tê-las, e das boas, mas se não soubermos porque pescamos, onde pescamos, como pescamos, para quê pescamos, e principalmente o que pescamos, arriscamo-nos a continuar com o prato vazio... de peixe, pelo menos! Neste fim de semana, os meus pais leram um artigo muito interessante editado pelo jornal Público, do Marco Bento, que falava destas coisas, e da cana de pescar. E deste tempo do Covid e do tempo que os professores precisam para ser melhor professores. O Marco Bento até escreveu assim: “E para se poder ser melhor professor, esta é uma profissão que precisa de tempo… para ler, tempo para criar, tempo para estar, tempo para partilhar, tempo para conversar, tempo para sentir, tempo para rir, tempo para parar, tempo para pensar, tempo para reflectir, tempo para o ser.”. Veem?

Se os professores tiverem tempo eles vão saber ensinar como pescar! Claro que a minha supersónica cana de pesca (o computador na secretária lá da escola ou em casa) vai ajudar... eu sei! Aliás, será imprescindível, também sei! Mas só porque a planificação da minha professora e o tempo que lhe dedicou tornou necessária a utilização da minha super cana! E assim sim, nesse dia, eu terei no prato um verdadeiro petisco, fruto do meu pensar e da minha reflexão: aquilo que verdadeiramente aprendi. Ah.... mas é melhor eu voltar ao início da nossa conversa. Já estava a divagar. No início eu dizia que tinha muitas saudades.... mesmo! Pois, ... e tenho! E sabem? Criar, rir, partilhar, falar, refletir, criar, estar, sentir, aprender,.... não é possível sozinho. São verbos que deviam ser conjugados apenas na primeira pessoa do plural: “Nós”. Aliás... sabem porque é que a palavra “nós” quer dizer “nós”? Desculpem... eu explico melhor: Nós (pelo menos duas pessoas) quer dizer “nós” (dos fios, das cordas)... não se riam. É verdade! Os nós dos fios e das cordas chamam-se nós para nos dizer que “nós” – primeira pessoa do plural – somos como eles, os nós. Entrelaçados, enlaçados, mais soltos, apertados ou largos, para enfeitar ou para prender, ajustáveis ou fixos, de mil e uma formas, feitios, e (de)feitios... enfim... somos nós, de nós. Por isso temos que viver juntos – em casa ou na escola. Nós.... em nós.... aos nós. Juntos, e com as nossas canas de pesca!
Que chegue o Verão, porque ao terminar voltaremos à escola!

A minha árvore dos desejos continua. Esta foi só mais uma das suas folhas. Também ela traz a terceira e última folha pequenina, colada, presa por uma das suas pontas: esta é em forma de estrela. Que gira! Vou prender-lhe um fio... lançá-la pelo ar... e depois corto o fio para que possa ir para o céu e brilhar... para mim, desculpem... não.... para nós!

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel,
E um menino de bibe.
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.
(Miguel Torga)



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