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A “Banalidade do Mal”

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Ideias

2018-10-19 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

A“banalidade do mal” foi uma expressão criada por Hannah Arendt, num livro que publicou em 1963. Hannah Arendt era uma filósofa alemã, com nacionalidade americana. Em 1961, enquanto correspondente da revista The New Yorker acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann por crimes de genocídio contra os judeus, durante a guerra, e contra a humanidade. Ao longo do julgamento, Arendt foi sendo confrontada com a constatação de que Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, um militar nazi que geriu a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio das zonas ocupadas pelos alemães na Europa de Leste, onde as vítimas eram gaseadas, seria também na sua opinião, “alguém terrível e horrivelmente normal. Um típico burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, por amor ao dever, sem considerações acerca do bem e do mal”. Surpreendentemente, viu em Eichmann um homem sem qualquer “grandeza maléfica”, nem perverso nem políticamente fanático, apenas como se fosse “vazio de pensamento”, um produto de um Estado totalitário.
O mal teve sempre um caracter enigmático, que associamos ao pecado e ao sofrimento. Para Hannah Arendt, o mal é produzido pelas pessoas e divulgado ou generalizado quando se criam condições institucionais para isso. Sou apenas economista, sem qualquer formação adicional ou aprofundada em filosofia, mas na minha leitura do trabalho de Arendt a autora sublinha o perigo da anulação da individualidade, da supremacia da obediência e do cumprimento de regras face à espontaneidade do pensamento. Ser livre, pensar livremente e agir é uma coisa só, conforme refere Hanah Arendt. Pensar e compreender , para lá do conhecimento, permite questionar o mundo e o significado das experiências , das ações e das circunstâncias, e nessa medida é fundamental exercer uma responsabilidade política. E agir. Arendt analisa por esta via o fenómeno totalitário do sec. XX , o nazismo , como constituindo uma nova modalidade do “mal radical”, onde as pessoas se tornam supérfluas, mas refere ainda a crescente “alienação do mundo moderno”. As suas reflexões, provocatórias por vezes, largamente analisadas e criticadas, vieram a influenciar o pensamento político moderno e a chamar a atenção para a importância dos movimentos cívicos e sociais, bem como para um discurso ético.
Para lá da discussão teórica do ponto de vista da filosofia do trabalho de Hannah Arendt, que se remete para quem o conhece bem e corretamente o avalia a montante e a jusante, quando olho para a história mundial – está quase a fazer 100 anos sobre a conclusão da 1ª guerra mundial – e para a crescente polarização que se vem assistindo um pouco por todo o lado, a par do imediatismo das redes sociais, da habituação a uma realidade pontuada por fake news a que no fundo vamos achando piada e a uma linguagem política de validação da violência, no fundo poderemos estar novamente a possibilitar a banalização do mal.
No Brasil, um país que “nos lava a alma” como diz uma amiga, marcado profundamente por uma enorme diferenciação de rendimentos., pela insegurança e pela corrupção, Bolsonaro diz que “um negro não serve nem para procriar”. Veio depois afirmar que era apenas “uma piada”. Diz tambem que uma colega da Câmara dos Deputados “não merece (ser estuprada) porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque não merece”. Propõe ainda combater a insegurança com o recurso á violência E outras coisas do mesmo tipo, não ficando contudo nunca claro o programa económico que se propõe implementar, num país com 10 milhões de desempregados e um défice na ordem dos 100 mil milhões de reais nas contas públicas. Aparentemente sublinha a necessidade de um extenso plano de privatizações, a redução do peso do Estado, ainda que reforçando o militarismo.
Nos Estados Unidos, Trump, mas também na Europa este discurso, ou variantes do mesmo, tem vindo a fazer um percurso crescente. A extrema direita volta a ganhar peso político, tal como aconteceu na década de 30. E vamo-nos habituando a um discurso de violência e exclusão do outro, vamos banalizando o que lemos e ouvimos, vamos recriando circunstancialismos que fizeram já história . “Se alguém se engana com seu ar sisudo/ e lhes franqueia portas à chegada “, como na canção de José Afonso, “eles comem tudo, eles comem tudo”. As coisas estão complicadas.

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