Correio do Minho

Braga, terça-feira

A Banda de S. Miguel de Cabreiros toca há 175 anos

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2018-05-02 às 06h00

José Hermínio Machado

A primeira vez que contactei com o apontamento que vou referir foi na exposição que a doutora Elisa Lessa organizou sobre a música praticada ao longo do século XIX nos hotéis e espaços do Bom Jesus. (Exposição O Património Musical do Bom Jesus do Monte Centro de Exposições Cândido Pedrosa - Bom Jesus do Monte; 23 de julho a 6 de outubro 2016) Fixei a fonte e só agora tive tempo para a ler e reler. Em Memórias do Bom Jesus Do Monte, de Diogo Pereira Forjaz de Sampaio Pimentel, publicado em 1884, encontra-se de facto o seguinte apontamento acerca das festas que então se faziam neste santuário: «Innumeravel multidão de povo e de romeiros havia concorrido ao Bom Jesus na vespera do Domingo da festa.

Passeios, escadarias, adro do templo, avenida, alameda, e terreiro dos Evangelistas, tudo estava povoado; e os homens com suas clarinetas, violas, rabecas e cavaquinhos (a) acompanhavam as cantigas campestres e animadas das Minhotas.» à frente da enumeração dos quatro instrumentos vem a nota «(a) São os quatro instrumentos favoritos do povo do Minho.» Pois toda a minha curiosidade está nesta nota e não propriamente no género feminino do instrumento de sopro. Muito provavelmente as violas referidas serão do género das braguesas, até porque assim parece ser uma imagem então divulgada também nesses painéis concebidos para expor a documentação encontrada sobre práticas musicais nos hotéis e espaços do Bom Jesus.

Começo esta crónica com este apontamento para demonstrar precisamente como o clarinete está registado nas tocatas populares minhotas e para levar o leitor a questionar-se por que razão não estão outros instrumentos de sopro, dado já existirem muitas bandas de música e respectivas escolas de ensino. Na altura do livro de Pimentel a Banda de Cabreiros já contava 41 anos, este ano celebra 175 anos. Não é seguramente a banda mais antiga (1843) nem é das mais antigas, mas com três vezes sete quartéis de anos já faz uma riquíssima figura entre todas as mais. Aqui ficam os meus parabéns e os meus votos de que prossiga os caminhos da longevidade. As bandas são parte do nosso património musical, representam já uma longa tradição corporativa de organização dos músicos. Habitualmente apresentam-se com os sopros e os tambores, naqueles dominando os metais e as madeiras, nestes as caixas de rufo, os pratos e o bombo. Mas hoje já apresentam mais variedade instrumental.

Como já demonstrou em concerto público, a banda de Cabreiros cumpre todos os requisitos funcionais de uma festa, desde a alvorada e o desfile pelas ruas, até à celebração solene da missa cantada e da procissão, desde o arraial até à cerimónia fúnebre. No seu repertório faz jus a um acumulado crescente de peças populares e eruditas, satisfazendo gostos e exigências, demonstrando escola e preparação contínuas. As bandas constituem na paisagem sonora de um país um assimilador civilizacional, fomentam a curiosidade e o treino da atenção, desenvolvem o habitus musical das pessoas, conduzindo-as por patamares de conhecimento que graduam as exigências pessoais e sociais. E porquê?

Porque, em primeiro lugar, elas resultam da formação musical adquirida pelos músicos em escolas próprias ou na escola da banda, depois, em segundo lugar, porque recebem toda a dinâmica renovadora da liderança de seus maestros, finalmente porque estão sempre em concorrência de gosto e de exigência popular o que significa estarem dentro de um circuito de modismos musicais, festivos, sociais, celebrativos, espirituais, discursivos. Nós temos um imaginário extensivo sobre a intervenção repertorial das bandas de música que cobre todo o território do humano, desde o campo da batalha ao chão dos cemitérios, enchendo os espaços do sagrado e os do profano.

E as bandas são elas próprias a confirmação do poder intensivo e extensivo da música, quebrando as barreiras horizontais da estratificação social e recompondo sempre as da verticalidade elitista das composições. As bandas são, além do mais, um campo semântico da interpretação do mundo, uma espécie de metáfora cognitiva que serve para explicar o bom funcionamento do social, tanto em elogio como em crítica, tanto no sério como no paródico. As bandas constituem, também, pelas narrativas que acumulam de viagens, concertos, rivalidades, percalços e casos singulares, um património folclórico de larga extensão e acutilante função formativa ao longo de gerações.

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