Correio do Minho

Braga, terça-feira

A bandeirada de Valença

Dar banho às virgens

Ideias

2010-04-11 às 06h00

Carlos Pires

1. Há bandeiras espanholas hasteadas em Valença. A cidade foi tomada pelo amarelo e vermelho do símbolo do país vizinho.
As razões para que Valença, por estes dias, se pareça com um enclave espanhol em Portugal prendem-se com a HTMLCONTROL Forms.HTML:Hidden.1 decisão de encerramento do serviço de atendimento permanente (SAP), no período das 24h00 às 8h00. Em sequência, o alcaide de Tui, na Galiza, demonstrou total disponibilidade para tratar os doentes portugueses, sem pagamento de taxas moderadoras, o que foi aceite por muitos utentes, que recusam deslocar-se até ao Serviço de Urgência de Monção, mais distante, preferindo fazer 1 quilómetro e ir até à cidade de Tui, do lado de lá da fronteira, onde, dizem, há melhores condições de atendimento.
Perante a constatação da irredutibilidade das posições da Ministra da Saúde, muitos dos habitantes de Valença, acedendo a um apelo da Comissão de Utentes do Centro de Saúde local, decidiram, pois, colocar bandeiras espanholas em janelas de casas e de lojas comerciais.
A acção assume-se também, ainda que de forma simbólica, como um gesto de agradecimento ao alcaide de Tui. Contudo, o motivo principal é mostrar, sem equívocos, ao Governo português que antes de poupar no Serviço Nacional de Saúde há muitos outros sítios onde poupar.

2. A acção popular em Valença indignou muitos portugueses, por parecer antipatriótica. Afinal, aquilo que os espanhóis tanto lutaram para conseguir, com elevado preço de sangue, deles e nosso, sem lograr os seus intentos, parecia obtido pela simples abertura do serviço de saúde de Tui aos cidadãos de Valença.
Tenho a noção clara da garantia das nossas fronteiras, as mais antigas da Europa. Não será um movimento de protesto que porá em causa o portuguesismo de um povo com sete séculos de resistência às invasões.
Mas reconheço que, nos últimos tempos, a forma de protestar de alguns consiste em renegar a “bandeira portuguesa”. Aconteceu em Barrancos, por causa das touradas. Maria João Pires, consagradíssima pianista, ameaçou renunciar à nacionalidade portuguesa por se sentir incompreendida em Portugal. José Saramago, reconhecido escritor, também fez a mesma ameaça, pelo mesmo motivo, acabando por ir viver para Espanha. E acontece agora em Valença, colorida com bandeiras espanholas, por causa do encerramento de um SAP.
Paradoxalmente, não posso deixar de relembrar outro episódio de bandeiras: foi preciso o brasileiro Filipe Scollari e um campeonato de futebol para que por todo o País florescessem bandeiras portuguesas. Triste fado o da alma lusa!

3. À distância, o episódio de Valença pode ser analisado de uma forma menos emotiva do que quem o vive directamente. Por um lado, em localidades de baixa densidade populacional, o custo de atendimento dos poucos utilizadores do serviço nocturno é, por pessoa, muito elevado. Por outro lado, refere a Ministra da Saúde, Ana Jorge, o SAP criava nas pessoas uma falsa sensação de segurança e por isso não era útil. A diversidade e qualidade dos serviços que, naquelas circunstâncias, os SAP podiam prestar eram limitadas e básicas. Quando o doente precisava de uma assistência mais especializada, o SAP limitava-se a reencaminhá-lo para outros centros. Na prática, a disponibilização de transporte, a partir do domicílio, em ambulância do INEM, devidamente equipada, diminui o tempo total que o doente demora a chegar até onde a assistência adequada lhe pode ser prestada.
Então, porquê a agitação que se vive em Valença? É provável que as pessoas se sentissem mais seguras com o serviço anterior, ainda que precário. Mas há, quanto a mim, uma outra razão: é o resultado de um certo cansaço e até mesmo de desconfiança por parte das populações relativamente ao desprezo do Poder Central por algumas regiões do interior. Ou seja, em momentos cruciais para as vidas das populações, em que competia ao Estado garantir uma resposta às necessidades fundamentais, como sejam as relacionadas com a saúde, esse mesmo Estado demite-se das suas funções e manda encerrar serviços essenciais, a que se junta a consequente perda de empregos. As pessoas sentem-se injustamente afastadas do acesso a coisas que, mal ou bem, se tinham habituado a considerar como garantidas.
É falta de sensibilidade a este sentir que as decisões do Poder Central evidenciam, tomadas arrogantemente, sem esclarecimento cabal. E um Estado surdo às pretensões e aos interesses das populações conduz, inevitavelmente, à perda de sentido de identidade nacional.
Pôs um dia Eça de Queiroz na boca de um dos seus (anti?) heróis que “o País está entre S. Bento e a Arcada (Terreiro do Paço); o resto, é paisagem”. Pois a paisagem tem vindo a conquistar o direito de cidadania. E uma das conquistas da cidadania plena é o direito à contestação.

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