Correio do Minho

Braga, terça-feira

A barca de Padim... e a sua lenda

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2013-07-09 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Abarca de Padim pertencia ao Convento de Tibães, a quem foram doadas muitas terras e concedidas regalias, incluíndo direitos e concessão da barca e dos barcos que faziam a travessia do rio Cávado, entre Cabanelas e Padim da Graça. Esta era a travessia mais importante do rio Cávado, muito antes da ocupação dos Romanos e da ponte de Prado. Dava ligação com a primeira civilização de Cabanelas no monte do Urgal, junto à Igreja. As terras do Convento, confrontavam com as margens do rio, a barca transportava os carros de bois carregados para as duas margens, sendo um pólo de desenvolvimento local nesse tempo, mas também um negócio muito lucrativo para o Convento de Tibães, nesse tempo casa mãe dos Beneditinos no mundo.

Com a extinção da ordem!.. No decorrer do ano 1834 o convento ficou abandonado, uma parte das terras foi adquirida pela casa de Padim, uma das casas mais ricas e influentes da região, bem como a concessão da passagem do rio e os moinhos das azenhas do Cávado, que também pertenciam ao Convento. Com os meios de transporte existentes nos nossos dias, a travessia de barco acabou, mas ficaram muitas histórias e lendas desse tempo. A barca que mais tarde era conhecida como a barca de Padim, sempre foi motivo de histórias e contos de fada, contadas à noite ao calor da lareira pelos nossos bisavôs, envolvendo o rio Cávado e a dita barca, que as feiticeiras se serviam para ir ao Brasil e voltar na mesma noite.

Foi a partir do início do século XIX que se acentuou a imigração para o Brasil, onde muitos portugueses foram à procura de fortuna. Foi o caso de um homem chamado José. Deixou a sua esposa e partiu para essa aventura, mas que em pouco tempo esqueceu a família. A sua esposa Maria, nunca deixou de lhe escrever. Porém, o marido ignorava as cartas da esposa. Um dia, a esposa contou a uma comadre a sua situação e a comadre prometeu ajudá-la.

A sua comadre era uma das feiticeiras que ia ao Brasil na barca, numa ida, tratou de saber da situação do marido da sua amiga, sabendo com quem estava amigado. Dias depois, a comadre sabia de tudo, mas não podia dizer que esteve no Brasil, sem contar o grande segredo, dizer à comadre que era feiticeira. A esposa sempre que encontrava a comadre lamentava-se com o silêncio do marido, então a comadre decidiu contar-lhe que o seu marido vivia com outra mulher sobre o efeito de um bruxedo, mas que ia ajudá-la. A esposa não acreditou na comadre, dizendo que ninguém a podia ajudar e despediram-se.

Dias depois, a feiticeira foi à casa da amiga e contou-lhe toda a verdade, dizendo que era feiticeira, mas que o segredo desvendado lhe custaria a vida, a esposa prometeu segredo e elaboraram um plano para ir ao Brasil, quebrar o feitiço do marido da amiga. O plano consistia em esconder a esposa no porão da barca, procurar o feitiço, tirar a amiga da cama e pôr lá a esposa, mas criar também um pretexto para a comadre não ir com as outras para os bailaricos habituais.

Chegado o dia, tudo correu como planeado. As feiticeiras chegaram à barca e logo uma tomou o comando dizendo:
- Comadres a postos, por cima de sirvais e por baixo de carvalhais.
A barca sobre a magia das feiticeiras, seguia à velocidade de um relâmpago, enquanto uma de vez em quando dizia:
- Aqui vai, folgo vivo!..
Mas a comadre logo dizia:
- Deixem ir o que vai.

Chegadas ao Brasil tudo se desenrolou como previsto. A comadre disse às amigas que ficava a guardar a barca, e logo as amigas feiticeiras saíram. Então foram à morada do José, encontrando-o na cama com a amiga. A feiticeira tirou a amiga da cama pondo lá a esposa. O feitiço eram dois bonecos atados encontrados num gavetão. A feiticeira desfez o laço que os unia e esperou que o acto matrimonial fosse consumado. À saída a esposa pegou no anel do marido que estava em cima da mesa-de-cabeceira, meteu-o no bolso, assim como um ramo de um arbusto que havia à frente da sua porta, voltando ao seu esconderijo no porão da barca.

Alguns dias depois, a esposa pôs o ramo à porta, mas eis que encontrou no seu caminho uma senhora muito distinta que lhe disse:
- O acto foi nobre, mas retire o ramo que tem à sua porta, para não secar como ele.
A esposa ficou intimidada com a ameaça feita por aquela senhora, metendo o ramo dentro de casa, ficando com a convicção que aquela senhora sabia de tudo e seria também feiticeira.

Meses depois nasce um menino. Na terra todos comentavam a traição daquela esposa. A sogra escreveu ao filho a dar-lhe a notícia pedindo-lhe que viesse fazer justiça. O filho apressou-se a voltar, mas logo que a esposa soube que tinha voltado, foi com o menino ao seu encontro à casa de seus pais, pedindo que queria falar com o marido. A sogra mostrando-se muito ofendida, disse à nora para ir embora, que não queria uma desgraça à sua porta.

Mas a nora insistiu e o seu marido veio à porta, o rosto da sua esposa iluminou-se, e disse-lhe que o menino era fruto do seu amor, ele aproximou-se levantando a mão para lhe bater, mas ela recuou dois passos dizendo:
- É teu filho e posso prová-lo... dormi na tua cama.
E nesse momento tirou o anel do bolso entregou-lho dizendo:
- Estava na tua mesa-de-cabeceira, e trouxe-o para provar que estive contigo naquela noite.
O marido, em voz baixa, disse:
- Pensei que fosse outra pessoa que o tivesse levado. Nessa noite dormi muito, parecia estar sob o efeito de um sedativo, não sei o que se passou.
A esposa pediu-lhe:
- Vamos para a nossa casa, que eu conto-te tudo o que se passou.
O marido acreditou na esposa. Foi buscar a mala e voltaram para casa. A sogra estava incrédula com o que se estava a passar.
Alguns dias depois, o marido perguntou:
- Como encontrastes a minha casa?
A esposa disse:
- Não duvides de mim, e foi buscar o ramo já seco. perguntando-lhe:
- Este ramo é de um arbusto que tinhas à frente da tua porta, por onde entrei e saí… confirmas?

Ele disse que sim e definitivamente acreditou na sua mulher. Na aldeia ninguém compreendeu o que se passara, mas todos diziam que o menino era a cara do pai. Meses depois, a esposa perguntou ao marido se já acreditava em feiticeiras, e ele respondeu que sim. Mas só acreditava nas que iam ao Brasil e voltavam na mesma noite… Ambos riram e voltaram a ser felizes…

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