Correio do Minho

Braga,

A bota não dá com a perdigota

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2010-11-02 às 06h00

Jorge Cruz

O Hospital de Braga continua a suscitar a preocupação dos utentes e, em consequência, a ser o foco da atenção dos políticos e da própria comunicação social. E o mais curioso é que as questões não envolvem apenas a actual gestão privada, da Escala Braga, abrangem também a gerência do “velhinho” São Marcos, que já deixou de ter responsabilidades directas na unidade hospitalar bracarense há mais de um ano mas mantém a condução dos assuntos pendentes.

Aliás, um dos casos ainda a aguardar resolução já podia e devia estar solucionado há muito tempo porque prende-se com horas extraordinárias prestadas por médicos há mais de três anos, entre Março e Junho de 2007, mas que ainda não foram pagas, não obstante a Administração ter ordenado o seu pagamento. O processo, com contornos muito caricatos, provavelmente vai obrigar os clínicos, através do seu Sindicato, a recorrer aos tribunais.

Mas analisando o funcionamento da unidade de saúde após a entrada da actual gestão privada, verifica-se que ciclicamente surgem notícias preocupantes para os doentes e para a comunidade em geral, algumas das quais até já levaram alguns deputados a questionarem a tutela, e a própria gerência, sobre as queixas de utentes e outras anomalias que são tornadas públicas.

Recorde-se que no início deste ano a administração do Hospital de Braga determinou que o atendimento de novos doentes de quatro especialidades fosse interditado, embora garantindo que continuaria a ser assegurado o serviço aos que já estavam a ser seguidos na unidade hospitalar. Foi então argumentado, em defesa de tal posição, que tais especialidades não constavam do perfil assistencial da parceria negociada com o Governo.

Ao ser confrontada com a escandalosa situação, a tutela logo prometeu encontrar uma solução que assegurasse os direitos aos doentes daquelas especialidades. Para o efeito, e tanto quanto se sabe, viria a ser estabelecido um acordo para garantir a esses enfermos a assistência no Hospital de Braga.

Recentemente, porém, e segundo denúncia de deputados do BE, que se baseiam em declarações de responsáveis do Hospital de S. João, do Porto, soube-se que foram transferidos doentes com doenças infecciosas, uma das especialidades visadas, sem que existissem razões clínicas que o justificassem.

Para completar a trapalhada, mais ou menos na mesma altura a Administração do Hospital impôs, à revelia dos clínicos, a mudança de medicação a um grupo de doentes neurológicos e, mais grave ainda, suspendeu o fornecimento gratuito da hormonoterapia aos doentes com carcinoma da mama e da próstata.

Esta última decisão, de cariz eminentemente economicista, como convém a uma entidade mais preocupada com o lucro do que propriamente com os direitos inalienáveis dos utentes do Serviço Nacional de Saúde, suscitou protestos de doentes e da própria Unidade de Oncologia do Hospital.
Além do mais, os responsáveis da Escala Braga parecem ter esquecido que apesar do seu estatuto de entidade de direito privado, do que se trata é de gerir um serviço público que se destina a doentes e não a clientes, conforme decorre do contrato de parceria celebrado com o governo.

“Está posta em causa a qualidade do melhor tratamento para estes doentes oncológicos, uma vez que muitos não irão ter condições financeiras para suportar os custos da hormonoterapia”, denunciou na altura a Unidade de Oncologia em carta dirigida ao presidente do Colégio da especialidade. Acresce, conforme também foi sublinhado, que aquele acto de gestão consubstancia também “uma grande injustiça regional já que somos o único hospital em que a hormonoterapia não é fornecida gratuitamente”.

Se a todas estas embrulhadas juntarmos as muitas questões relativas a pessoal médico e de enfermagem, e que já tiveram como consequência a saída de excelentes profissionais, facilmente concluiremos que a parceria público-privada entre os ministérios da Saúde e das Finanças e a sociedade Escala Braga, do Grupo José de Mello, tem sido muito pouco pacífica.
As alterações operadas ao nível de chefias e as pressões para que médicos, enfermeiros e auxiliares subscrevessem acordos individuais de trabalho antes da mudança para o novo hospital criaram um clima de tensão e instabilidade emocional que vieram a contribuir decisivamente para a desistência e consequente abalada de óptimos profissionais.

Curiosamente, a Escala Braga inscreve nos seus valores o “respeito pela dignidade e bem-estar da pessoa, desenvolvimento humano, competência, inovação e responsabilidade”, afirmando mesmo que estes “são os princípios que definem a nossa identidade e que devem ser afirmados e transmitidos pelas nossas equipas”. E, já agora, também declara “garantir os direitos e o bem-estar do utente, humanizando a relação e os cuidados prestados”.

Aparentemente, os valores apregoados pelos responsáveis da Escala Braga não são passíveis de compaginação com algumas das decisões assumidas. Será caso para dizer que bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz, ou, usando a sempre sábia expressão popular, não dá a bota com a perdigota.

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