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A carreira política

Ir atrás dos sonhos

A carreira política

Ideias

2020-12-24 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

São muitos os fatos políticos merecedores de análise racional. Digo racional intencionalmente, por- que pretendo ser isento neste caso- o de Eduardo Cabrita. É que nos conhecemos há 30 anos e o encontro não foi propriamente amistoso e sempre me deixou um amargo na boca. Foi uma decisão à qual não se pode atribuir culpa, mas que resulta de um espírito legalista e formalista.
Ele continua assim; não mudou. Não percebe que há vários níveis de responsabilidade: responsabilidade criminal, responsabilidade institucional e responsabilidade política. A pri- meira é individual, dos agentes que torturaram e mataram um cidadão ucraniano. E é da alçada dos tribunais. O ministro pode demonstrar a sua repulsa, instaurando processos disciplinares.
Quanto à responsabilidade institucional, é mais complicado. Estes tipos de crimes, como se tem demonstrado não são ocasionais; vão-se repetindo, perante a passividade dos dirigentes do SEF e conivência de outros agentes. Esta cultura de ódio ao negro e ao imigrante faz parte do ADN da instituição, inserida num país colonialista, racista e traficante de escravos. A ideia de que a colo- nização portuguesa era uma colonização branda é uma grande treta que a história desmente. E só por oportunismo político é que é que foi adotado pelo antigo regime a filosofia do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre. Este conhecido sociólogo brasileiro entende que os portugueses têm uma especial capacidade de adaptação, não se movendo por interesses económicos, mas por empatia inata e criadora. Mas os casos últimos de violência policial, não apenas do SEF, são demonstrativos duma cultura racista que contradiz esta visão romântica.
Como se resolve este problema? Como se muda esta cultura que grassa nas forças policiais, penetradas pela extrema-direita? Não é só punindo (com penas muito leves, valha a verdade!...), mas educando e for- mando. Eduardo Cabrita não percebe isto, ao remeter para o tribunal as ocorrências e ao mexer muito tarde nas chefias. Ele é responsável, pois não lhe conhecemos nenhuma ideia, a não ser as declarações de que se trata de casos isolados e individuais e que, portanto da alçada dos tribunais.
E não assume, como outros antes dele, a responsabilidade política. Porque o mantêm no Ministério?
Percebo este comportamento. Faz parte da lógica do carreirismo político. Nos partidos do arco do poder (PS, PSD, CDS), a atividade política insere-se numa carreira política que começa nas juventudes partidárias, continua nas assessorias dos ministérios e secretarias de Estado, chega a chefe de gabinete e atinge o cume como secretário de Estado e ministro. Ora, nem a subida é meritocrática, nem a atividade política pode ser desempenhada por carreiristas que perderam o contacto com a realidade, vivem num mundo aconchegado, no ar condicionado dos gabinetes e dos assentos de cabedal dos carros do Estado; e que não sabem fazer mais nada, senão bajular, trepar e despachar, conforme o Conselheiro Acácio.
Eduardo Cabrita é um destes, um homem do aparelho que há muito ultrapassou o limiar de Peter. Tirem-no; não é que faça mal a alguém; é boa pessoa e não tem culpa. Mas não tem nada na cabeça; só despachos e está a deslegitimar o Estado e o governo. Sendo certo que de quem o substituir não fará muito melhor, sobretudo se vier do aparelho; mas pode perceber que o que se passa não apenas no SEF, como nas outras polícias.

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