Correio do Minho

Braga,

'A Carta', por Mário Viana

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2011-09-04 às 06h00

Leitor

Todos os dias, à mesma hora, da porta da loja, eu os via passar. Ambos septuagenários, baixinhos, sempre de mãos dadas, no mesmo passo enérgico para a idade. Ela, nitidamente mais fresca, de cabelinho curto, muito asseada, sempre na dianteira, como se o levasse pela mão; ele, de gestos mais presos, um olhar algo lento, um passo quase trôpego.

- Bom dia! - Cumprimentavam-me com um sorriso. E prosseguiam a travessia da cidade, àquela hora ainda mal desperta no amanhecer. Ao fim da tarde, quando o crepúsculo descia sobre as casas e o néon colorido incendiava as fachadas das lojas, era o regresso pelo mesmo caminho.
- Até amanhã…

Nunca trocámos senão breves saudações, mas aquele casal de idosos que me passava à porta já fazia parte do meu quotidiano. Não sei onde moravam - suponho que para os lados de Maximinos - nem onde passavam o dia, provavelmente nalgum centro de dia do outro lado da cidade, que, a conselho médico, percorreriam a pé.

A dada altura, reparei que os passos dele eram mais lentos e que o rosto se lhe tornara mais hirto. Era o tempo em que as árvores se despiam das folhas secas e um vento frio andava à solta pelas ruas. Então, até o baloiço que ficava no parque defronte da loja estava sempre parado.
Ainda passaram várias vezes, para um e outro lado. Numa altura em que as iluminações de Natal já enfeitavam as ruas e as pessoas entravam e saiam das lojas, como formigas num carreiro, deixei de os ver. Calculei que, por precaução, se resguardassem do frio da época e não liguei mais ao assunto. De resto, as solicitações na loja eram agora muitas e deixavam-me pouco tempo para distracções.

A seguir aos Reis, voltei a vê-la passar, desta vez sozinha, sem ninguém pela mão, e com mais vagares. Cumprimentei-a uma vez ou duas, sem mais conversa, até que me enchi de coragem:

- O marido?...
Uma sombra toldou-lhe o rosto e as lágrimas humedeceram-lhe os olhos. Por instantes, receei que desatasse a chorar. Mas logo se recompôs, apontou com o queixo para o céu e disse, simplesmente:

- Recebeu a carta, sabe?
Desculpei-me, apresentei-lhe condolências, esbocei uma palavra de conforto. Agradeceu e, antes de seguir, rua fora, carregando a solidão de já não ter a quem dar a mão, ainda me sorriu:
- Agora, só estou à espera da minha…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.