Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A casa de férias

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2012-08-03 às 06h00

Escritor

Por Fabíola Lopes

Após sete horas de torreira ao sol e à paciência (mãe, já chegamos?) a percorrer o alcatrão do litoral português (bendito ar condicionado!), chegaram às tão esperadas férias. Esmifradamente entregaram a segunda parte do pagamento em troca de duas chaves de acesso ao fantasiado descanso por uma semana. Uma casa na praia, perto do centro da vila: a distância perfeita entre o acesso à areia e aos bens necessários à sobrevivência de uma família com três pestes vigorosas e acidentadas.
Coxo e sujo, o velho de barbas sagazes retirou-se para o breu depois de atirar duas direcções pouco percebíveis. Mas lá chegaram - chagados pela impaciência embrulhada com a ansiedade infantil. O que vale já tinham parado para resolver o problema dos monstros de bocas grandes nas barrigas no único café existente ao longo de 30 km de recta alentejana, ao lado da bomba de gasolina.
Abriram o portão: ficaram estarrecidos! Os miúdos foram os primeiros a reagir numa euforia de exploração: carros de bombeiros com escadas e mangueiras enroladas, remodelados em camaratas.
- Olho no Gonçalo! Com dois anos não pode trepar por aí como vós ou ainda parte a cabeça.
Entreolharam-se, o casal, com a derrota evidente. Àquela hora e com aquele cansaço todo, não haveria direito a reclamação ou alternativa nos kms mais próximos. Nem vivalma a quem reclamar. Uma ventania súbita inundou o espaço de areia. Correram a meter as malas dentro e a fechar o portão.
- A vassoura é de uma bruxa alada de verruga bem gorda e peluda na ponta do nariz! - Alertou a Maria. Cheia de razão, diga-se, pelo aspecto esfanicado da mesma. Quando a mãe acabou de varrer todo o átrio os miúdos já estavam nas suas camas, numa gladiação entre o sono e a imaginação contagiada pela atmosfera. Dos sete auto-tanques, três já estavam ocupados: cada rei quis ficar com a sua “torre” (o excesso de testosterona por m2 sempre fez destas!).
A janela da suposta cozinha abriu-se e espalhou uma série de folhas esquecidas na secretária. O mesmo rosto, o mesmo olhar negro e distante, desenhado vezes sem conta. Apenas o cabelo se ia diferenciando, numa sequência rápida de vento pela frente.
Acalmadas as fantasias infantis de almas penadas e inúmeros parentes, o silêncio imperou. Estava exausta, mas não conseguia ceder ao sono. Algo a inquietava, mas não conseguia nomear.
Seria daquele espaço amplo, vazio, impessoal? Quantas histórias não transpiram daquelas paredes cinzentas? Os auto-tanques reflectiam as sombras esfuziadas das ferramentas e uniformes pendurados na parede interior. Um machado ferrugento prendeu-lhe o olhar.
Luís já dormia profundamente: o seu ressonar assim o denunciava. Eis o embalo que lhe faltava.

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