Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A casa de plástico

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-08-07 às 06h00

Escritor

Miguel Guimarães

Ao fim daquela tarde, amena, própria dos dias grandes do final do mês de Julho, tinha acabado mais um dia de trabalho na carpintaria.
Tinha sido mais um dia chato, aborrecido, daqueles em que o trabalho não rende, e para além disso, acompanhado com a presença de um patrão, muito mal disposto e sempre a criticar tudo e mais alguma coisa.
Mal consegui colocar o pé da parte de fora do portão, respirei fundo de alívio e desloquei-me para a paragem do autocarro que, pelas minhas contas, ainda demoraria alguns minutos a chegar.
Sentei-me no banco da paragem, que se encontrava vazio, muito ao contrario doutras alturas não tao longínquas quanto isso, em que era quase sempre pequeno.
Comecei a olhar para tudo o que rodeava. Olhei para todos os cantos daquela zona industrial que, para além dalguns pavilhões com alguma juventude, era composta, na sua maioria, por outros cinzentos, velhos e abandonados.
Mas, mesmo ali à minha frente, do outro lado da rua, reparei num cenário próprio dos países menos desenvolvidos e que não esperava ali encontrar. Tais imagens incomodaram-me, agitaram-me e criaram em mim um sentimento de revolta.
Dentro de um dos muitos caixotes do lixo que por ali existia, um miúdo franzino, de pele escura, de camisola rota e calções sujos, remexia tudo o que existia dentro daquele contentor.
Como a sua baixa estatura era insuficiente para chegar onde este pretendia, o catraio tinha adaptado um segundo plano: tombara um dos contentores e, desta forma, já podia procurar o que bem entendesse.
Alguns dos meus colegas já me tinham contado sobre o que ali se passava mas, sinceramente, nunca pensei que chegasse aquele ponto.
Segundo eles, era costume aquela criança andar por ali todo o ano. No Inverno, o contentor servia também de abrigo, do frio, do vento e da chuva.
Aproximei-me dele, devagar, para que, com a minha presença, ele não se assustasse.
Quando me viu, ali bem perto dele, o miúdo pasmou, fixando o olhar dele no meu.
Perguntei-lhe o que ele fazia ali, naquele sítio onde, como lhe expliquei, corria o risco de se infectar com as mais diversas doenças.
-Procuro para encontrar alguma comida. Para mim e para os meus irmãos. - Respondeu-me com a maior naturalidade do mundo.
- E a tua família? Não tens pai? Nem mãe? - Perguntei-lhe incrédulo.
- O meu pai está no céu. - Respondeu. - Já a minha mãe toma conta dos meus irmãos.
- Pega, aceita estes trocos e compra alguma coisa que vocês precisem. E já agora como te chamas?
- Igor. - Gritou-me o catraio correndo com um carrinho de supermercado cheio de latas vazias.
No dia seguinte mal pude esperar pelo final do meu laboro.
Deixei que todos os meus colegas abandonassem as instalações fabris para que, sem que ninguém se apercebesse, fosse ter com o meu novo conhecido e partilhasse com ele alguma da alimentação que tinha inserido no meu farnel a mais, com a intenção de lha oferecer.
Quando me viu, veio com um sorriso na minha direcção e, depois de um cumprimento, sentou-se na beira do passeio para ali conversar comigo.
Entreguei-lhe os bens que tencionava e, conversei com ele durante largos minutos. Tinha conseguido a simpatia do miúdo.
Durante os dias seguintes continuei com a mesma rotina.
Numa das nossas conversas perguntei-lhe se não tencionava ter uma vida melhor, própria das crianças da sua idade.
Respondeu-me que não, que dentro dos contentores tinha tudo o que precisava.
Alertei-o para os perigos que podiam ocorrer da comida estragada e, depois de um breve silencio e, a olhar para o chão do passeio, disse-me que me contava um segredo, mas para não contar nada a ninguém.
- Eu não como nada do que está aqui dentro, sabe? Só que as pessoas veem- me aqui e oferecem-me dinheiro e comida boa que levo para casa. Depois aqui dentro costuma haver montes de latas que vendo ao senhor da sucata.
Fiquei de boca aberta. Esperava de tudo menos daquela confissão por parte do garoto.
Também reparei nas revistas que estavam coladas na parte superior do contentor.
-Para que servem?- Perguntei.
- Servem para viajar até esses sítios. Quando vejo estas coisas bonitas imagino-me lá e sonho um dia lá chegar.
Depois, com um brilho nos olhos continuou:
- Sabe, tenho um sonho! Vou levar todas as latinhas que encontrar para sucata…
-E para quê? - Interrompi-o enquanto ele se punha a pé e pegava no carro das compras, já bastante carregado.
- Um dia quero ter uma casa, assim como esta, de plástico, mas muito maior.
- Estou a ver. Para acolheres a tua família toda!
-Sim. E também quero casar com ela. - E aí apontou-me para uma página de uma revista com a fotografia da…Princesa Diana.
- É muito bonita ela, não é? - Perguntou-me.
- Sim, mas se não for com ela há de ser com outra. Nunca desistas. - Respondi-lhe, dando uma grande gargalhada no fim.
-Agora vou ter de ir, senão a sucata fecha e depois não há moedas.- Disse-me o Igor, já em passo de corrida.
-Moedas? Para que?- Perguntei-lhe ainda mal refeito da risada.
- Como acha que compro a minha casa de plástico, gigante?
Afinal aquele miúdo que vivia como um miserável nos caixotes do lixo, enganava quase toda a gente.
Podia não ter nada daquilo que a maioria das crianças da sua idade tinha e, mesmo assim, tinha demasiada alegria, tamanha ambição e tantos sonhos que não cabiam, de certeza, numa vulgar…casa de plástico.

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