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A Casa do Poder é Uma Prisão

Ser ou não ser

A Casa do Poder é Uma Prisão

Voz aos Escritores

2022-05-06 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Pu Yi foi coroado Imperador da China aos dois anos e dez meses, a 2 de Dezembro de 1908, sentado, a chorar, no Trono do Dragão da Cidade Proibida, a cidade dos Imperadores da China. Chorava assustado pelos altíssimos sons dos festejos, a estranheza da pompa, das pessoas que o reverenciavam, dos eunucos que o bajulavam, afastado, à força, da casa do Pai, dos braços maternos, do aconchego do seu Mundo de menino predestinado ao poder. Na Cidade Proibida tudo era diferente, enorme, sumptuoso, imposto. Pu Yi foi idolatrado, um menino endeusado em cujos caprichos se liam o desamparo e a perdição dos crescidos sem amor.
A todas as refeições, dispunha de quarenta pratos, comia o que escolhia. Todos os dias tinha um traje novo para vestir, de seda e adornos magníficos, amarelo, de preferência, a cor régia da dinastia Qing, um imperador não podia repetir as vestes, vestes-relíquias usadas que eram vendidas no mercado negro pelos eunucos. Tinha um séquito de serviçais que lhe satisfaziam as vontades de menino birrento, um menino preso na solidão dos educados para governarem e na multidão se evidenciarem. E essa subserviência de milhares de eunucos fazia-se acompanhar de uma corrupção que delapidava os cofres da Cidade Proibida. Os capados aturavam-lhe os esperneios, os açoites, as exigências e as perrices porque obtinham muito dinheiro nos sinuosos corredores da fraudulência. Pu Yi crescia na Cidade Proibida, menino triste e só, símbolo da China Imperial e da riqueza de outrora, entalado entre as paredes da Casa do Poder, uma casa-prisão.
Ventos de mudança sopravam no Oriente, ventos que queriam trazer à China o lendário apogeu mundial, brisas da república que se alastraram à Cidade Proibida, a China era agora uma república e Pu Yi um mero símbolo que muitos persistiram em reverenciar e Pu Yi, ameaçado no seu poder, mais veneração exigia, confirmações de que era e sempre seria o Senhor dos Dez Mil Anos. Quem provou o poder vicia-se nele, quem provou o poder não vive sem ele.
A solidão e o medo atenuaram-se com os seus casamentos. A imperatriz e as consortes divertiam-no e satisfaziam-lhe o fulgor másculo. Ter várias mulheres comprovava o seu poder. Um poder que periclitava de dia para dia até o expulsarem da Cidade Proibida e os japoneses o transformarem num imperador fantoche da Manchúria.
Pu Yi perdeu as mulheres, os bens, o poder. Um imperador deificado, criado nas mordomias e na supremacia do seu estatuto, era agora, por outras políticas e outras vontades de poder, um pobre diabo pisoteado pelos vermelhos da China. A ganância não se altera, somente muda de mãos. Permanece na História. Poder. Dinheiro. Sexo. A trindade que rege o Mundo desde sempre e para sempre. Preso numa outra prisão, Pu Yi tentou matar-se cortando os pulsos. Quem viveu na Casa do Poder só sai dela entalado num esquifo. De imperador a zé-ninguém. A vida deixa de ter sentido. Pu Yi sobreviveu. Recalcou o passado, os tempos áureos da aparência, tempos de infelicidade maquilhada de tradições opulentas, tempos da vã glória de mandar. Morreu aos sessenta e um anos, quando Mao Tsé-Tung abocanhava o poder, o poder que fez dele um tirano, o poder que continua a moldar déspotas de mãos manchadas de sangue humano.
Nos seus derradeiros anos Pu Yi libertou-se da Casa do Poder, desencarcerou-se da sua prisão, foi jardineiro até a morte o levar, a profissão que o libertou e deu beleza à vida humilde de homem nascido para ser divinizado.

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