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A censura do silêncio

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A censura do silêncio

Escreve quem sabe

2020-02-28 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso Carlos Alberto Cardoso

As redes sociais vieram alterar o paradigma da comunicação política, sendo esta uma nova realidade com a qual temos de conviver todos os dias. O problema é que esta nova realidade está a distorcer a nossa perceção da realidade de uma forma abrupta e bruta.

Esta semana, foi publicado um artigo no “THE Atlantic”, que informava que Donald Trump preparava-se para gastar um bilião de dólares nas redes sociais, na sua próxima campanha presidencial. A minha primeira reação foi questionar o porquê de tamanho investimento, mas rapidamente fiquei esclarecido ao ler o artigo. As redes sociais são para Trump e muitos outros uma máquina de apagar a realidade, criando um ecossistema favorável aos seus interesses e à sua reeleição. O mais fantástico é que o jornalista que assina o referido artigo testou durante semanas a sua própria presença nas redes sociais, deixando-se levar pelos algoritmos da inteligência artificial, e concluiu, que ele próprio ficou confuso, tendo dúvidas entre a informação que recebia constantemente de todos os lados e que o estava mesmo a acontecer. No fundo, entre o real e a informação que chegava sobre o mesmo real. Agora, imaginem os milhões de americanos que ficam confusos e, perante a confusão, votam na continuidade, no poder, no risco mínimo, na segurança do que vivem.

Os tempos mudaram, efetivamente! No passado, qualquer líder precisava de falar alto na praça publica, usar megafones, para se fazer ouvir. Nessa época, confrontavam-se ideias, gritando e contestando, acrescentando novos argumentos, combatendo e eliminando os dissidentes. Hoje, os líderes aprenderam a aproveitar o poder democratizante dos “social media” para os seus próprios propósitos, obstruindo sinais e semeando confusão. Eles já não precisam de gritar alto nas ruas, apenas anulá-los censurá-los pelo silêncio. A comunicação de massas transformou-se em comunicação personalizada, através dos smartphones e ipad’s que diariamente usamos para consumir informação.

Voltando ao artigo americano, este concluía que a comunicação quanto mais afastada da realidade, mais acelerada era a sua difusão e propagação. E isto é interessante do ponto de vista daquilo que faz o comum dos eleitores partilhar informação. O uso de sites de notícias locais, utilizando a propagação do medo regional; o uso de mensagens anónimas; o uso da edição de imagem, produzindo mensagens focadas em 9 segundos; são instrumentos que nos dizem que a proximidade é a base de toda a estratégia. As redes sociais analisam e exploram o mundo individual das pessoas, oferecendo uma comunicação focalizado no indivíduo, usando os seus dados e estudando os seus hábitos para formar a sua opinião e decisão. A era dos social media é a era da desinformação e do ruído.

O mundo nunca mais será o mesmo. E nós não estamos preparados para isto. Continuamos a fornecer dados atrás de dados às grandes companhias, com medo de ficarmos para trás no conhecimento digital; continuamos a expor a nossa vida, com se ela fosse uma feira de vaidades; continuamos à procura dos nossos nove segundo de sucesso, mesmo que ele seja apenas virtual. Digo nove segundos, porque este é o tempo que dura a nossa atenção máxima perante cada novo input, o mesmo tempo de atenção usado pelo peixinho que temos no nosso aquário. Será que é isto que queremos para o futuro da humanidade? Preferia quando me comparavam a um macaco, do que, agora, quando me comparam a um peixinho. Mas o conceito até é interessante: imaginem-se dentro de um aquário digital, onde vêm o mundo que os outros escolhem para vocês verem e vivem felizes, pois qualquer tristeza só dura 9 segundos!

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