Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A China

Portugal de pernas para o ar!

Ideias

2010-11-12 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Quando era miúdo os meus avós falavam no perigo amarelo, uma espécie de invasão mongol que arrasaria a civilização ocidental. Muito mais tarde, no começo da década de noventa passei dois anos na China, já depois da grande revolução e da política de “um país, dois sistemas” de Deng Xiaoping. Depois disso visitei esporadicamente a China. E agora, anos depois da invasão das lojas chinesas, chega a notícia da semana passada de que a China poderá comprar a dívida externa portuguesa.

Como explicar a ascensão da China? O processo falsifica a teoria política do desenvolvimento dominante do paradigma neoclássico. A ideia central deste modelo consiste na aceitação da economia de mercado e democracia política e na crença de que todo processo de desenvolvimento deve seguir as passadas das nações do mundo industrializado, designadamente da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Deste modelo derivam vários princípios. Em primeiro lugar, o de que o desenvolvimento político é condição do desenvolvimento económico. O segundo reporta-se ao papel do Estado, o qual só deve intervir quando existirem imperfeições do mercado. E, finalmente, deve existir uma separação entre política e administração.
Ora, o crescimento espectacular da China levou à falsificalidade da teoria neoclássica.
E, sendo assim, como explicar a ascensão económica da China? Adiantam-se várias explicações, algumas delas contraditórias. Duma coisa temos a certeza, o salto no crescimento económico só foi possível devido ao esforço do Estado e de uma elite que foi capaz de coordenar esforços, construir infra-estruturas, disponibilizar capital, fornecer trabalhadores e gerir as transformações sociais sem provocar rupturas. Esta tecnocracia só conseguiu operar porque envolvida numa cultura confuciana e num sistema político estável, embora autoritário e repressivo, quando visto por padrões ocidentais. Importa agora que ao contrário do que acontece noutros países, onde foram implementadas políticas de desenvolvimento, haja efectiva distribuição de rendimentos, combinando-se o crescimento e a igualdade. Por outras palavras, a população no seu conjunto deve usufruir progressivamente dos resultados do crescimento económico.

Em síntese, a explicação para o sucesso macroeconómico e empresarial está na interacção entre duas explicações alternativas: o modelo cultural que sublinha a importância da família, o sentido da hierarquia, a entreajuda e a procura e importância dado à educação e formação profissional; e o modelo Institucional, o qual garante a estabilidade macroeconómica e a cooperação e articulação entre os sectores público e privado.

Este tipo de Estado foi pela primeira vez denominado na literatura de “development state”. Segundo C. Johnson (1987) este tipo de Estado apresenta as seguintes características: o desenvolvimento económico, definido em termos de crescimento, produtividade e competitividade constitui prioridade essencial da acção do Estado; em segundo lugar, os conflitos sobre os objectivos do Estado devem ser evitados; em terceiro lugar, aceitação da economia de mercado, só que se trata dum mercado gerido e orientado pelo Estado, mas em constante interacção com as empresas privadas. E sendo assim, este modelo de Estado não coincide com o “Estado Regulador” de que tanto se fala actualmente, sobretudo depois da crise.

E depois disto, e voltado ao princípio, a China já não é o perigo amarelo, mas a salvadora duma certa economia de mercado. A ver vamos, mas o pêndulo da história que nos últimos duzentos anos inclinou-se claramente para o Ocidente, retomou novamente o caminho do Oriente, transformando-se no centro de decisão do mundo. E quem não acredita que visite Xangai!...

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