Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Cidade, a Habitação e o Turismo

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-06-05 às 06h00

Filipe Fontes

E eis que a habitação entra na discussão e reflexão sobre a cidade, assumindo-se como foco central quando se fala da reabilitação do edificado, quando se constata a apropriação turística do espaço público, quando se assiste a uma mudança (será esta a palavra correcta?) do paradigma funcional das áreas centrais das urbes.

Na verdade, a dita nova realidade urbana feita do cruzamento de uma população, ainda e sempre, de igual padrão qualitativo (habitantes, trabalhadores, turistas, visitantes,…) mas de relação quantitativa muito diferenciada com uma (aparente) tomada do espaço público e do edificado pelo turista (remetendo o habitante para lugares ora distantes, ora anónimos; obrigando a uma substituição do comércio local e singular - mesmo antigo - pelo negócio globalizado e generalizado) chegou com estrondo e afigura-se querer ficar, introduzindo novas dinâmicas, virtudes e desafios à cidade que importa ponderar, criticar e favorecer em medidas ajustadas e proporcionalmente qualitativas para todos.

De forma genérica, hoje, assiste-se a uma reabilitação urbana (edificado) centrada nas tipologias baixas e pensadas para o habitante temporário e de curta duração, um espaço público tomado pelo turista que se reflecte, a título de exemplo, na língua dominante ouvida na rua e nas esplanadas repletas de rostos estranhos aos autóctones, uma organização dos serviços colectivos (aparentemente), cada vez mais, dependentes e subservientes à população transitória que vai ocupando e usufruindo a cidade (e que, de alguma forma, introduz novos e impactantes gestores da cidade - nunca como hoje se conhecem plataformas de gestão do edificado e de transportes que, fruto das suas opções e políticas, vão influenciando a prática diária da vida da cidade).

E, reconhecendo-se que esta nova realidade coloca questões complexas e de difícil gestão - que importa reflectir e dominar - antes de qualquer abordagem a tal, há convicção e necessidade de afirmação e visibilização de três princípios que, para o autor deste texto, são fundamentais à cidade: o princípio democrático de uma cidade “de todos e para todos”, onde todos, sem excepção, têm o direito à existência e ao usufruto em simultâneo com o dever da partilha e da solidariedade; o princípio da perenidade de uma cidade feita de um “tempo curto e imediato” mas suportada por um “tempo longo e permanente” que só uma população presente, solidamente pre- sente no tempo e no espaço, consegue assegurar; o princípio da reciprocidade de uma cidade feito de um emissor (aquele que está em regime de permanência na cidade) que disponibiliza cultura, património, natureza, gastronomia singular, tão singular que motiva outros a visitar e usufruir, e de um receptor que consumindo e usufruindo desses recursos culturais, patrimoniais e outros, respeita-os e valoriza-os, não os “sugando”, esvaziando ou banalizando…

A estes princípios acrescenta-se uma outra realidade que, ao mesmo autor deste texto, tantas vezes, impressiona e, tantas outras vezes, torna enviesada e deturpada a reflexão sobre a cidade: a discussão sobre a cidade, sobre os seus problemas e desafios não é uma luta dicotómica entre o bem e o mal, entre a razão e o interesse disfarçado (ou pouco transparente) como tantas vezes transformamos a troca de argumentos: a minha razão e aqueles que comigo a partilham são o bem e a razão; os outros que discordam, tantas vezes independentemente da validade do seu pensamento, são o mal e o interesse.

E, talvez seja por aqui, que compense começar. Simplesmente, antes de reflectir e debater, realizar um esforço colectivo e comum de ver o outro como uma parte verdadeiramente interessada no bem da cidade e com quem vale a pena debater e esgrimir argumentos, não o encarando como adversário, apenas como parte integrante de uma sistema feito de todos aqueles que interagem e gostam da cidade.
Porque será este o caminho para encontrar a solução. Porque será este o caminho para todos se entenderem… (continua)

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