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A cidade é um acumulado de tradições… e vai daí?

Holocausto

A cidade é um acumulado de tradições… e vai daí?

Escreve quem sabe

2019-01-30 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Quando estudei no Conservatório de Música de Braga (1973/75), acompanhei de perto as iniciativas que o professor Cândido Lima então promoveu para nos dar a conhecer a música contemporânea, desde concertos e exposições no Conservatório, até duas visitas à Gulbenkian, em Lisboa, uma vez para ouvirmos a música de Xenakis e outra vez para contactarmos com a música de Emanuel Nunes. Então, como hoje penso, a música contemporânea foi, era e é, um desafio às sonoridades instaladas e estáveis que então e agora a gente tem nos ouvidos e é deste desafio permanente que ela ainda se alimenta. Agradeço a Cândido Lima a abertura de compreensão das linguagens musicais que provocou em mim e que hoje alimento. Creio que é neste diálogo entre as linguagens musicais que vivemos actualmente, hoje com mais atrevimentos, mas também com mais entrosamentos entre umas e outras.

Comecei assim a propósito da salvaguarda de paisagens, ou das rupturas delas, rurais e urbanas, umas e outras pelas vertentes naturais e humanas que as configuram ou desconfiguram como tais, ainda que não valorizadas de forma igual, as quais fazem emergir nas notícias, nas conversas e nos debates, perspectivas pouco libertadoras de pensamento crítico, quando não derivam mesmo para as perspectivas condicionadoras e frustrantes da compreensão. Seja a propósito do casario, seja dos campos, seja das árvores, seja dos sistemas de produção, seja mesmo de usos e costumes, modas, cantigas, danças, enfim, de tudo o que faz uma paisagem. E todavia, as paisagens vão mudando, ainda que se mantenham os «apelos da paisagem» (Ernesto Veiga de Oliveira) para continuarem a ser vistas da forma como foram consagradas na longa duração. A propósito convém tomar em consideração que a fotografia e o filme se tornaram já tecnologias centenárias que favorecem a permanência de estados de alma perante as paisagens, urbanas e rurais. Por estados de alma entendam-se aqueles desejos de voltar a ver as coisas como eram dantes, ou como se calcula que seja o seu estado actual paradigmático de bem parecer.

No que toca a campos e a casas, a monumentos e a caminhos, a rios e florestas, a fotografia e o filme tornam hoje possível a comparação da ocupação dos espaços, contribuindo para um acumulado de memórias cuja estabilidade é apoiada em várias fontes da literatura, especializada ou não. As discussões extremam-se quando se aborda a problemática do humano demasiado humano que garantiu e garante tais paisagens ou que já as não garantirá por longo tempo. Recentemente, acumulei às minhas leituras os artigos de arquitectos, um, o arquitecto paisagista Henrique Pereira dos Santos, outro, o arquitecto Fernando Cerqueira Barros, não só pelos contributos pessoais, mas também pelas leituras e trabalhos de observação e reflexão que sugerem.

Pois bem, de uma abordagem sobre os agrossistemas e as paisagens que determinam, estando em jogo aquele consenso habitual sobre a valorização atribuída aos socalcos de Sistelo, nos Arcos de Valdevez, aconselho que nós, aqueles que atribuímos às tradições uma função de orientação fundamental dos debates, tomemos como matéria de reflexão estas considerações expressas em artigo do site 5ª Lógica:
«Nas reflexões mais propagadas sobre agrossistemas (e que muitas vezes vêem o turismo como a grande panaceia da modernidade) dá-se as pessoas e as suas práticas ancestrais como adquiridas e considera-se que haverá uma substituição natural dos obreiros envelhecidos por obreiros mais jovens. Esquece-se que os jovens têm novos anseios e necessidades, esquece-se que os modos de produção ancestrais foram a inovação necessária no contexto histórico, foram a invenção do futuro, foram a resposta inevitável às necessidades e anseios da população que os levou a cabo e que poderão não ser os mais adequados para o presente, para o agora! »
(Vidé: https://www.facebook.com/5aLogica/)

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