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Braga, segunda-feira

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A cirandar à volta de algumas expressões populares num casamento de alforge

Os amigos de Mariana (1ª parte)

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A cirandar à volta de algumas expressões populares num casamento de alforge

Voz aos Escritores

2021-11-05 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Pus-me a carpir com saudade
Ao pé d´uma púcara em brasa
Quentes e doces bilhós
Saltavam fora da asa.

Fernanda Santos

ALíngua Portuguesa é fértil em expressões populares. O Norte tem servido de inspiração para a maioria delas. Refiro-me, em concreto, ao nordeste transmontano, onde nasci, e a Braga, a cidade que me adotou.
Comecemos, então, pela expressão cirandar. Quando era pequena gostava muito de cirandar pela aldeia. Perdia-me a escutar contos e cantigas tradicionais. E não havia ciranda em que eu não entrasse. É que a ciranda era uma dança popular comunitária onde não havia preconceito quanto ao género, à cor, à idade, à condição social ou económica dos participantes. Também não havia limite para o número de pessoas que nela quisessem participar. Começava com uma roda pequena que ia aumentando à medida que as pessoas chegavam para dançar, abrindo o círculo e segurando nas mãos dos que já estavam a dançar. Sempre a “arganhar a tacha”, isto é, a sorrir, tanto na hora de entrar como na hora de sair, a pessoa podia fazê-lo sem o menor problema.
E se cada terra tem seu uso e cada roca seu fuso, imaginem quando se cruzam duas terras num casamento de alforge.
Certamente que nem todos os leitores estarão familiarizados com a expressão casamento de alforge. O alforge é um saco fechado nas extremidades e aberto ao meio, formando dois compartimentos, que se usava muito sobre a montada, para transportar os pertences. Ora, quando os casamentos ocorriam entre as pessoas da mesma terra, o alforge não era necessário, pois o que acontecia na terra ficava na terra.
No meu caso, tendo casado em Braga, o alforge andava sempre cheio de um lado para o outro. Não é por acaso que já antes de conhecer esta cidade, fisicamente, fiquei, algumas vezes, a “ver Braga por um canudo”.
E se a expressão deriva do telescópio localizado no Bom Jesus, que permite observar a cidade, uma das explicações mais aceites para esse significado tem a ver com o nevoeiro que, com alguma frequência, se faz sentir no Bom Jesus e que impede uma observação límpida da cidade.
Pois bem, entende-se, por isso, o significado “morrer na praia”, ou seja, ver as expectativas frustradas por se estar perto de um objetivo, mas não conseguir atingi-lo.
Em boa verdade, podemos referir que as expressões cujo nome de Braga é referido são utilizadas em todo o território nacional. Talvez o leitor já tenha sido mandado abaixo de Braga e não soubesse bem o significado do que ouvira. Pois bem, declaro que não o mandaram para um local agradável de se estar. Diz-se que a expressão estará diretamente ligada ao campo das hortas, perto do Arco da Porta Nova, isto é, fora das antigas muralhas da cidade, onde as águas residuais e dejetos iam parar.
Muito possivelmente que já lhe perguntaram “És de Braga?”, por ter deixado uma porta aberta. Pois bem, há várias explicações para o uso da supracitada expressão. Contudo, parece-me que a que recolhe maior aceitação, relativamente ao significado da expressão, deve-se ao facto de o Arco da Porta Nova nunca ter tido uma porta. À data da sua construção, as guerras já não se verificavam com a frequência de séculos anteriores e, como tal, a porta foi considerada redundante. Talvez por ter crescido numa terra onde as portas nem tinham chave, entre outras explicações para a mesma expressão, gosto, particularmente, da que diz respeito ao espírito comunitário da cidade: para que os vizinhos entrassem sempre que quisessem, os bracarenses deixariam a porta aberta.
Outra das expressões típicas de Braga usada em todo o país é a célebre “Mais velho que a Sé de Braga”, que é aplicada quando se classifica algo de extremamente velho, normalmente num tom hiperbólico. E qual a justificação para tal expressão? Diz-que se deve ao facto de Braga ser a arquidiocese mais antiga do país e, naturalmente, da Sé ser de facto bem velhinha!
Como estamos no outono e é tempo de bilhós e de magustos, recordo aqui esta palavrinha tão boa e tão quentinha! Pois é, estimado leitor, não me estou a referir a bilhó como uma criança pequena, atrevida e guicha: “Este bilhó não sabe estar quieto”. Não, estou mesmo a falar de castanhas assadas sem casca. Tão simples quanto isto. No outono no nordeste transmontano, pela altura do S. Martinho, é frequente comerem-se bilhós depois da ceia. E como o mês de novembro traz com ele o cheirinho nas ruas, a voz a ecoar “quentes e boas” e o barulho dos assadores de castanhas a serem agitados, já ouço esse eco da memória “vai um manhuço de bilhós acabadinhos de sair da púcara de barro?

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