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A construção social do SARS-CoV-2

Pensar o futuro

A construção social do SARS-CoV-2

Escreve quem sabe

2020-11-14 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Os vírus habitam o nosso planeta há cerca de 1.5 mil milhões de anos. Portanto, durante os primeiros 2/3 da existência da Terra eles não estiveram presentes. A espécie H. sapiens terá surgido muito mais recentemente, há uns 350.000 anos e os modernos humanos há somente cerca de 50.000 anos. Contudo, só começámos a aperceber-nos de que coabitávamos com vírus há pouco mais de um século.
Os primeiros a suspeitarem da sua existência, de modo independente, foram o russo Dmitri Ivanovsky, em 1892 e o holandês, Martinus Beijerinck, em 1898. No final do século XIX lutaram ambos por tentar perceber a causa de uma estranha moléstia que dava cabo das plantações de tabaco, com as grandes perdas económicas, para os respetivos países, que isso acarretava. Ao utilizarem filtros de porcelana ultrafinos para retenção de bactérias, concluíram que, se depois de fazerem passar por eles uma solução com as folhas de tabaco doentes, se mantinha o “contagium vivum fluidum”, ainda que não sendo observável, então podiam conjeturar a existência de uma entidade microbiológica mais pequena (umas vinte vezes) que as bactérias, mais tarde batizada “vírus do mosaico do tabaco” (VMT), o primeiro do seu “reino” a ser descoberto.

Os vírus começaram por ser, pois, para nós, uma hipótese. Todavia, foram precisas mais de seis décadas para que se percebesse como é que o VMT realmente funciona. Tal só aconteceu com a ajuda de uma inovação tecnológica, o microscópio de difração de raios-X, que permitiu à química britânica, Rosalind Franklin, localizar o ARN dentro dos viriões do VMT.
No entanto, apesar dos dramáticos avanços da Virologia no último século, a nossa relação com os vírus continua difícil. Eles causam-nos ansiedade porque surgem de modo inesperado, silente, invisível, mas letal. O que provocou a atual pandemia surgiu furtivamente no início do outono de 2019 em Wuhan, China, por um processo zoonótico – morcegos da espécie Rhinolophus affinis passaram-no a pangolins e estes transmitiram-no a humanos – e foram precisos alguns meses para que se fizesse notar.
Apanhou-nos tão de surpresa, que, a princípio, nem sabíamos como referi-lo. Tentou-se “vírus de Wuhan”, “coronavírus de Wuhan”, “vírus chinês”, “novo coronavírus” e “vírus da COVID 19” até ficar fixado “SARS-CoV-2”. Esse foi o primeiro passo para combatermos o inimigo: dar-lhe um nome.

O passo seguinte foi dar-lhe aparência. É que o SARS-CoV-2 é inobservável a olho nu. Se pegarem numa régua e selecionarem o espaço de 1 mm, imaginem que o dividem mil vezes e obtêm 1 µm. Imaginem agora que dividem esse µm outras mil vezes. Têm o tamanho do SARS-CoV-2. Incrivelmente pequeno, não! Ficam também com uma ideia do tipo de filtros que as máscaras faciais devem ter para impedir a sua passagem.
Para torná-lo visualizável, o Centro de Controlo de Doenças dos E.U.A. pediu a dois médicos ilustradores, Alissa Eckert e Dan Higgins, que criassem uma imagem icónica do vírus. Já todos a conhecemos, porque habita o espaço mediático: o corpo é uma bola cinzenta, o invólucro em torno do núcleo do vírus; as saliências vermelhas são as proteínas que prendem o vírus à célula hospedeira – as pontas criam um efeito de coroa, denotando a família taxonómica a que pertence –; as nodosidades amarelas são as proteínas que atravessam as paredes das células saudáveis para infetá-las; as fraciúnculas laranja são proteínas de membrana que se fundem com a membrana da célula saudável.
Eis, pois, como o SARS-CoV-2 se vai tornando num facto científico socialmente construído.

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