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A crise da macroeconomia ortodoxa/neoliberal

Cansaço psicológico

A crise da macroeconomia ortodoxa/neoliberal

Ideias

2020-02-01 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Após os choques petrolíferos dos anos 1970 e as recessões económicas mundiais que se seguiram, provocou toda uma discussão acerca das causas daquelas crises e qual a ideologia que deveria prevalecer no futuro numa perspectiva de melhor funcionamento da economia de mercado. Foi assim, que numa postura contrária às teses intervencionistas do Estado (de inspiração keynesiana) até aí predominantes, que os governos dos países capitalistas mais avan- çados, bem como o poder financeiro mundial aprovaram o chamado Consenso de Washington (1989). Desde então, as teses de índole ortodoxa/neoliberal passaram a dominar a ideologia mundial, em particular, o estabelecimento de um conjunto de princípios orientadores: predominância do mercado livre; princípio do Estado mínimo. Igualmente formulou-se regras próprias de ajustamento económico: desregulamentação da actividade económica secundarizando o papel regulador do Estado; liberalização do comércio mundial; privatizações. Porém, a partir da crise financeira e económica global a partir de 2007/2008, em grande medida despoletado pela aplicação do receituário ortodoxo/neoliberal, o que o colocou em profunda crise. Assim, com a crise global desde 2007/2008 a ideologia ortodoxa /neoliberal vigente foi posta em causa pelos seus opositores heterodoxos/intervencionistas, mas também, por muitos dos seus próprios defensores que colocaram em questão, por um lado, a justeza da presença do Estado na economia e, por outro, a recolocação do papel do Estado no crescimento económico sustentado. Em concreto, surge uma corrente económica conhecida pela sigla MMT (“Modern Mo- netary Theory”), abrangendo um vasto leque de escolas, avaliações e pensadores, que faz uma análise crítica da ortodo-xia/neoliberalismo sobre o papel da moeda, do endividamento público, das taxas de juro e das políticas públicas.
Ora, o insuspeito economista (e banqueiro!) brasileiro André Lara Resende (doutor pelas Universidades PUC-Rio e MIT-EUA) tem vindo a desenvolver uma postura reflexiva e crítica da evolução do capitalismo global e da macroeconomia ortodoxa/neoliberal em vários artigos de sua autoria. A propósito, destacamos duas passagens de seus escritos:
(1) “A teoria macroeconómica está em crise. A realidade, sobretudo a partir da crise financeira de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita. O arcabouço conceptual que sustenta aas políticas macroeconómicas está prestes a ruir. O questionamento da ortodoxia começou com alguns focos de inconformismo na academia. Só depois de muita resistência e controvérsia, extravasou os limites das escolas e propagou-se na sociedade em geral”;
(2) “Os défices orçamentais podem e devem sempre ser usados para garantir o pleno emprego e estimular o crescimento. A única preocupação em relação ao uso do instrumental orçamental deve ser com os limites da capacidade de oferta da economia, que não podem ser ultrapassados, sob pena de provocar desequilíbrios internos ou externos e criar pressões inflacionistas.”
A teoria macroeconómica ortodoxa/neoliberal passou a ser altamente criticada por muitos economistas e escolas de pensamento, sobretudo a partir da crise económica e financeira de 2007/2008, dado que a realidade que se lhe seguiu passou a ser contraditória com a teoria ortodo-xa/neoliberal dominante. Surge, assim, a “Nova Macroeconomia” que procura explicar os fenómenos contraditórios do paradigma ortodoxo/neoliberal, nomeadamente:
(1) A persistente baixa inflação e o consequente risco de criação de um ciclo vicioso de deflação-recessão e tudo isso mesmo após a adopção pelos Bancos Centrais (FED nos EUA e BCE na zona Euro) de medidas de alívio monetário “quantitative easing” permitindo aumento de liquidez financeira e da massa monetária em circulação;
(2) A dívida pública mantém-se elevada em alguns países pese embora com juros próximos de zero;
(3) O rápido crescimento económico de alguns países, por exemplo, a China, tem sido feito à custa de altos níveis de investimento público e de endividamento externo.
Em suma, para a “Nova Macroeconomia”: (1) A moeda no mundo actual é sobretudo uma unidade de conta. O valor total da moeda em circulação numa economia depende sobretudo do nível de actividade económica. A moeda é endógena, ou seja, a expansão ou contracção da massa monetária é efeito e não causa, do nível de actividade económica, logo, a moeda não conduz à inflação. A inflação resulta das expectativas dos agentes económicos que são por natureza muito voláteis: nível de confiança de consumidores e de investidores; perspectiva da evolução da conjuntura económica. (2) A moeda sendo uma unidade de conta faz com que o governo que a emite não tenha qualquer restrição financeira, podendo expandi-la (comprando activos) ou contrai-la (vendendo activos). Não havendo restrição financeira, o único motivo para o governo cobrar impostos é a redução da despesa do sector privado, libertando recursos para o investimento público. Mais importante, para a “Nova Macroeconomia” o governo deve usar a política orçamental visando o crescimento económico e o pleno emprego; (3) O Banco Central (BC) ao fixar a sua taxa de juro afecta as taxas de juro de mercado e, logo, a procura agregada. Assim, a baixa da taxa de juro do BC é fulcral em situações de recessão económica ao dinamizar a procura agregada. Por sua vez, reduz também o custo da dívida pública.

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