Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

A crise das universidades portuguesas

Vamos falar de voluntariado…

Ideias

2017-10-06 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

As universidades são, de certeza, as instituições que mais contribuíram para a modernização do país, não só porque elas próprias atingiram níveis de excelência nos rankings internacionais, como, sobretudo, formaram milhares de jovens que contribuíram para a mudança de um país parado no tempo.
Mas certos fatores indiciam uma crise preocupante. E o primeiro fator prende-se com a endogamia. Um estudo da Direção-Geral da Estatística da Educação vem demonstrar que, em média, 70% dos docentes fizeram o doutoramento e, porventura, a licenciatura, nas universidades onde lecionam. Há casos exemplares, como a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em que essa percentagem atinge mesmo os 100% e a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa os 99%. O estudo não o refere, mas em muitos casos, designadamente nos citados, o fenómeno deve ter uma dose de nepotismo.
E, porque é que este fenómeno é nefasto? Porque os docentes mais jovens tendem a reproduzir os mais velhos, havendo desincentivos à inovação. Além de que fere o princípio o básico das sociedades modernas que é o princípio do mérito, o qual deveria ser o guia da gestão de recursos humanos nas universidades. Para evitar este fenómeno existem países em que as universidades não podem contratar os seus doutorados e outras formas de restrições.
Em segundo lugar, não existe renovação do corpo docente e isto significa que o corpo docente está envelhecido. Ora, é sabido que a partir dos 40, 45 anos, as capacidades de investigação e inovação vão diminuindo. Este fenómeno pode ser explicado pelos cortes financeiros do Orçamento Geral de Estado. Mas nos raros concursos, ganham sempre os docentes da casa. Fica mais barato não contratar uma pessoa de fora, além de que releva aqui um fenómeno que o Sindicato Nacional do Ensino Superior chama de “afiliação” e apadrinhamento por parte dos membros do júri dos concursos . Mariano Gago bem quis mudar esta prática, impondo que nos concursos, a maioria dos seus membros fosse de fora, de outras universidades, mas não conseguiu porque existe um acordo não escrito entre as universidades. E, por outro lado, a avaliação pedagógica é da alçada da universidade que abre o concurso. E, apesar do número inferior de membros do júri, tem um papel determinante.
A praxe académica constitui o terceiro sintoma da doença das universidades. Dizem os “doutores” que a praxe visa “ensinar” aos caloiros aos caloiros as regras de bom comportamento e integrá-los na Universidade. Mas, na realidade, as práticas que usam contribuem para criar uma juventude amorfa, submissa que aceita as regras impostas pelos mais velhos. E não é esta uma boa lição para os cidadãos do futuro deste país.
Finalmente, Mariano Gago mudou a administração e gestão das universidades, pretendendo que através da criação do Conselho Geral e dos Curadores, a Universidade se abrisse ao exterior, mas nada disto aconteceu. Assim não conheço casos em que os reitores, uma vez eleitos, não cumprissem um segundo mandato. E, após dois mandatos segue-se no cargo um dos vice-reitores, por norma apadrinhado pelo reitor cessante. Neste contexto, também os administradores de topo permanecem no cargo. Há assim uma reprodução das práticas, dos hábitos e das políticas. As universidades mais parecem bunkers fechados à sociedade, pouco tendo a dar à mesmo socie- dade.
É necessário um abanão, mas não vejo este ministro a fazê-lo, apesar de ser discípulo de Mariano Gago.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

10 Dezembro 2019

Regionalizarão?

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.