Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'A crónica do Pássaro morto (V de Vida)', por Matilde Alves Quintela

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2012-07-12 às 06h00

Escritor

Há algum tempo houve um Pássaro que nasceu num ninho no cimo de um frondoso embondeiro, numa pequena floresta.

Mas esse Pássaro, não gostava de ser pássaro! Que raio de bicho - pensava ele - que lhe tinha calhado! Tinha umas penas negras, e um bico cor de laranja (sim, esse Pássaro era um melro), tinha umas patas tortas e nem sequer conseguia chilrear. Vejam só, que nem nome tinha! Chamava-se apenas Pássaro, um nome igual a todas os animais dessa espécie.

Ele era ainda muito pequeno, e não conseguia voar. Tinha as asas entorpecidas (ainda mais essa!), por isso estava condenado a ficar preso naquele embondeiro velho que o viu nascer. Estava condenado a ver os irmãos voar e ir embora explorar o mundo, enquanto ele ficava ali, em constante queixume por ter nascido assim. Ora, não admira que ele tenha sido o último a sair do ovo, fora dele, não havia nada ao seu alcance!

Ultimamente o Pássaro tinha começado a desejar ser humano. Ter umas pernas para correr, não ter aquele malfadado bico, em troca, ter uma boca para sorrir e dizer palavras bonitas. Até podia ter um nome… Mas tinha que começar com a letra V, a sua letra favorita, que lhe tinha sido trazida pelo vento.

Decidiu contar isto aos irmãos, e combinaram que quando os eles partissem, lhe procurassem coisas sobre os humanos. Assim foi.
O primeiro irmão, contou-lhe que os humanos viviam num sítio sujo, sem árvores, todo cinzento, incluindo o ar, que tinha uma leve cortina que fazia as Pessoas tossir. Bem, isto deixou o pássaro pensativo…

O segundo irmão, contou-lhe que para o sítio onde tinha ido, os humanos não usavam a boca para sorrir, mas sim para dizer palavras feias, nenhuma começada pela letra V. O Pássaro ficou ainda mais preocupado! Então, os ídolos dele, os heróis dele não sorriam, e viviam num sítio todo descolorido?! Mas podia ser que o terceiro irmão, o que tinha voado mais longe lhe trouxesse boas notícias.

Quando o terceiro chegou, contou-lhe que no sítio onde tinha ido, todas as Pessoas tinham uma cara triste, olhos grandes cheios de vazio, olhos de sonhos por cumprir. Essas Pessoas não tinham ninho como o Pássaro e os irmãos. Essas Pessoas não tinham absolutamente nada! E elas próprias eram descoloridas, mais ainda que o sítio por onde vagueavam. Não tinham comida, mas estranho, tinham barrigas grandes!

Então o pequeno Pássaro pensou “ Se há Pessoas a viver em casas, embora cinzentas, porque é que não podem repartir com as Pessoas de olhos vazios? Será por não dizerem palavras com V? Será por não terem também embondeiros para encher o olhar?”

Pobre Pássaro, perdera toda a sua fé nas Pessoas, na humanidade. Isso, foi como se lhe tivessem arrancado o coraçãozinho que apesar de tudo ainda batia.
Decidiu fazer uma última coisa, começada por V. Decidiu então voar!

Atirou-se do ninho, fechou os olhos, e momentos antes de bater no chão, pensou: “Nasci Pássaro, Morrerei Pássaro, enquanto as Pessoas nascem Puras, e morrem Contaminadas pela falta de palavras com V, pela falta de sorrisos, pela falta de cor.”

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