Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A culpa é mesmo do Facebook?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-03-26 às 06h00

Carlos Pires

Recentemente foi divulgada a atividade de uma empresa de recolha e tratamento de informações sobre eleitores a Cambridge Analytica -, que trabalhou na campanha de Donald Trump em 2016, e que terá acedido irregularmente a dados de cerca de 50 milhões de utilizadores do Facebook, em 2014 e 2015, para poder criar publicidade específica destinada a influenciar o sentido de voto dos eleitores nas eleições americanas.
Tendo em conta os avanços civilizacionais das últimas décadas com base no primado de uma imprensa livre para a democracia, de imediato vozes soaram em todo o mundo a garantirem que a ameaça do Facebook é real e que por isso iriam desativar a respetiva conta pessoal. Segundo elas, mais do que uma plataforma de entretenimento, a rede social é afinal uma verdadeira máquina de manipulação de massas.
Será mesmo assim?

Vamos lá, em primeiro lugar, analisar o que de facto tem falhado no Facebook. Parece-me que a preocupação de Mark Zuckerberg terá que passar por um maior empenho no combate contra a disseminação de informações falsas e a desinformação. De igual forma, tolerância zero para fugas de dados pessoais. Técnicos e conhecimentos não faltarão, estou certo, para uma maior transparência e verdade em tudo o que se passa na rede. Competirá aos estados agir, sempre que as práticas revelem desrespeito pelos direitos dos cidadãos e da democracia. E a fatura terá de ser paga pelo Senhor Zuckerberg, uma vez que dinheiro, pelos vistos, não faltará. Mas compete e competirá, de igual forma, a todos nós, os utilizadores, efetuarmos algum trabalho de triagem e de recolha de informação junto de outras fontes, mais especializadas. Não podemos achar que tudo o que ali se veicula é seguramente verdadeiro e credível. Não somos definitivamente marionetas, manipuláveis. Este é o princípio em que acredito e que procuro implementar na utilização que faço das redes sociais.

Em segundo lugar, convenhamos, o discurso apocalítico a propósito de algo tecnológico e inovador, e que abarque massas, já não é novo. A História dá-nos exemplos. Foi assim nos primórdios da rádio ou mesmo da televisão, no advento da internet. Tantos e tantos exemplos poderiam ser dados. E se pensarmos em manipulação, pergunto: o quão uma imagem de TV pode influir na trajetória política de alguém? Basta apelarmos à memória. Lembro-me o quão caro custou ao ex Presidente da Republica, Aníbal Cavaco Silva, ter sido entrevistado na rua pela TV, evidenciando os cantos da boca com saliva branca cristalizada. E António Guterres e as contas do PIB Desgraçados por um momento e uma imagem, que a TV não poupou e que os eleitores não esqueceram.
A minha opinião é que a rádio, a televisão, a internet, o facebook ou outra plataforma qualquer, constituem meios. Meios que certamente são aproveitados por políticos e empresas, com o fim de deles se aproveitarem para obterem mais votos ou vendas. Ou para aniquilarem os adversários e a concorrência. Todos tiram partido da tecnologia.

Os smart phones e as redes sociais fazem parte da nova realidade social, vieram para ficar e lançam diariamente novos desafios. Cabe-nos a nós, comuns cidadãos, utilizarmos esses meios de forma responsável, evitando dessa forma que os predadores, habilidosos, possam utilizar-nos para ganhos nos seus intentos. Uma dica: não deem autorização de acesso e divulgação de dados pessoais a qualquer aplicação que instalem no vosso telemóvel; estejam atentos no momento de colocarem cruzes e sejam exigentes com a gestão da privacidade. E, estou certo, poderão manter, sem receios, os vossos contactos nas redes sociais e retirar daí benefícios: informação, cultura, entretenimento, reatar velhas amizades, etc.
Foi pois o Facebook que elegeu Donald Trump e levou os britânicos a votar Brexit? Não, não creio. No cerne da questão está e estará sempre a natureza humana. No limite será sempre esta a responsável, na sua fragilidade ou na sua ganância, na sua vaidade ou na sua batota. Venha pois o próximo culpado, a história não acaba aqui.

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