Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A despedida

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2016-07-19 às 06h00

Escritor

Carlos Ribeiro

O avião partia às 16h30... À medida que se aproximava a hora, a minha ansiedade aumentava.
Eu e a minha família estávamos a preparar o almoço, mas sem conseguir afastar a separação eminente que nos preenchia os pensamentos. A minha cabeça não conseguia desligar-se da incerteza do futuro, do desconhecido e da saudade que já sentia a acelerar o meu ritmo cardíaco e provocar lágrimas reprimidas nos meus olhos...

Em pleno Agosto, altura em que noutros anos estava a gozar as merecidas férias de Verão, fazia as malas com todas as minhas roupas e objetos pessoais para partir... rumo à Suíça, rumo ao desconhecido e em busca de um emprego, de um futuro melhor, ou talvez não... Tinha terminado a licenciatura em Julho e passados quinze dias, aqui estava eu, de malas às costas para o meu primeiro emprego como enfermeira num hospital qualquer. Podia e se calhar deveria ser um dia de alegria, tal e qual como foi o meu dia da formatura, em que organizei uma festa com direito a bolo e champanhe, acompanhada por toda a minha família e amigos. No entanto, não conseguia estar feliz, porque a saudade - palavra portuguesa que tão bem conhecemos - invadia todo o meu ser, antecipando os dias em que me iria sentir sozinha, sem os meus pais, irmã, tios, avós e amigos que deixava em Portugal.

Depois do almoço de domingo em família, pusemos as malas no carro e rumamos em direção ao aeroporto. Era inevitável não sentir a ansiedade latente em todos nós, mesmo com a minha irmã a insistir em disfarçar o seu estado de espírito, falando sobre trivialidades que não tinham nada a ver com aquele momento. Durante 23 anos vivi em casa dos meus pais, partilhando um quarto com a minha irmã mais velha, e hoje a minha vida e a deles iria mudar para sempre. Por muitas conversas que tenhamos tido sobre a minha partida, hoje sei que nenhum de nós está preparado.

Ninguém está preparado para se separar das pessoas que mais ama. Mas, o investimento financeiro dos meus pais e meu, enquanto estudante responsável e afincada, teriam que ter um retorno! E se o meu país, aquele em que cresci e me formei enquanto pessoa e enfermeira, não estava preparado para me acolher agora, dando-me oportunidades para vingar na vida pelos meus próprios meios e de acordo com o meu sonho, a minha aposta teria que ser num outro “lar” que me soubesse acolher e dar um emprego e condições para me tornar independente e uma excelente profissional.

Tenho a certeza absoluta de que daqui a uns meses todos vão sentir orgulho em mim! Porque tenho um desejo imenso de vitória e realização! Todo o sacrifício do meu pai em pagar contas, propinas da universidade, livros e o meu curso intensivo de francês iriam “dar frutos”. Eu devia-lhe isso a ele... e a mim! Por todas as noites mal dormidas em frente aos livros, por todo o stress antes das frequências e frustrações sempre que as notas não correspondiam ao meu esforço.

Nunca percebi que uma viagem rumo ao Porto passasse tão depressa... A hora estava a aproximar-se e eu queria prolongar aquele momento... Mal entrei no aeroporto avistei o meu namorado, enfermeiro e rumo à Suíça tal como eu. Ele iria ser, sem dúvida, o meu porto seguro num país e numa casa desconhecidos. Nada iria compensar a ausência dos meus pais e da minha irmã durante uma vida toda, porém, a presença dele confortaria o meu coração, os meus medos e angústias.
A tatuagem gravada eternamente na minha pele, feita há dois dias atrás, simboliza uma parte que vai comigo de hoje até sempre...igualzinha à da minha irmã, exatamente no mesmo sítio do corpo. Os meus pilares, exemplos e inspirações ficam aqui, porém fiz questão de os enraizar no exterior da minha pele para que todo o mundo pudesse ver... já que no meu coração, tudo está gravado a ferro e fogo!

A porta de embarque abre-se e eu sinto uma tremenda vontade de ficar... Os meus tios, primos e a minha avó vieram aqui para se despedirem de mim, uma vez mais. Vou disfarçando por entre piadas sobre emigrantes, com promessas de visitas guiadas à nova cidade que me vai acolher e dezenas de telefonemas e mensagens semanais para todos, contudo a minha vontade é de abraçar cada um deles e chorar. Não foi isso que fiz! Devagar, fui-me despedindo de cada um dos presentes, sentido-me especial e amada por terem vindo ao aeroporto num domingo à tarde com uma temperatura a rondar os 30º C e a convidar uma ida à praia.

Cada um deles teve uma palavra de conforto e motivação para me dar. Por entre beijos e abraços fui chegando ao fim da fila e aqui estavam eles, os que me viram nascer e crescer: pai, mãe e irmã. Será que isto é mais difícil para mim ou para eles? Bem, seja como for, enchi-me de coragem e abracei cada um deles. Nenhum chorou, exceto o meu pai que não conseguiu dizer uma palavra e depois de me dar um abraço, foi a correr para a casa-de-banho. A menina pequenina que tantas vezes embalou estava a partir, e eu sei que foi extremamente difícil para ele...

Virei costas e entrei na porta de embarque, de mão firmemente apertada ao meu namorado e sem conseguir mais segurar as lágrimas. Resoluta, levantei a cabeça e sorri, acenando sem parar até deixar de os ver.
O meu futuro começa aqui e agora, mas seria bem mais fácil se não existisse a despedida...

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