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A economia política é coisa para homens

A recuperação das aprendizagens

Ideias

2017-12-22 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

George Monbiot, o influente colunista de política económica do The Guardian, aquando do lançamento de Doughnut Economics (Economia Dónute) no primeiro terço deste ano, apelidou a sua autora, Kate Raworth, economista fora do mainstream, de “John Maynard Keynes do século 21” (12.04.2017). Estas comparações, ainda que possam ser bem-intencionadas, implicam sempre alguma deselegância, porque beliscam o valor da figura intelectual mais recente.

A obra de Raworth, com efeito, não se assemelha à opus magna do pai da Macroeconomia, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936), tendo, quanto muito, afinidades com As Consequências Económicas da Paz (1919) ou Os Meios para a Prosperidade (1933). Além disso, o contexto em que os interesses e inquietações de Raworth se formaram é bastante diferente do de Keynes: não aquele em que se intentou a reconstrução de economias nacionais após um conflito bélico mundial ou a recuperação de um sistema financeiro e económico internacional devastado e deprimido, mas antes o de um planeta a caminhar para o colapso e uma espécie ameaçada de extinção por ser a principal responsável por ter colocado a Terra nesse rumo catastrófico. Keynes viveu em e entre guerras mundiais, Raworth vive no Antropoceno. Keynes pensou sobre ruínas, Raworth pensa à beira do abismo.

Há, contudo, um otimismo de atitude, um idealismo pragmático made in UK, que os aproxima e que parece ter instilado a ambos uma visão orientada para o futuro, para o longo prazo do envolvimento intergeracional, progressista, crente de que, apesar das dificuldades, é possível superá-las, fazer melhor.
Raworth aspira a transformar o mundo começando por mudar a Economia que é, segundo ela, “a língua materna das políticas públicas”. Em entrevista recentemente dada lamentou que os estudantes de Economia que irão ser os decisores políticos em 2050 “continuem a ser endoutrinados com manuais dos anos 1950, baseados, eles mesmos, em teorias dos séculos anteriores”.

Uma mudança de paradigma terá, a seu ver, de ser encetada: uma que reponha a visão integral de Adam Smith sobre a economia política, não reduzida à exploração do modo como o egoísmo pode fazer funcionar os mercados (v. Causa da riqueza das nações, 1776), mas completada pelo seu inquérito sobre quão importante é o altruísmo para manter em funcionamento as sociedades (v. Teoria dos sentimentos morais, 1759); uma que não olhe para a esfera do económico como se fosse um mero sistema mecânico, que serviu a Paul Samuelson na década de 1940 para ensinar noções básicas a engenheiros, mas antes ligada às outras esferas do mundo da vida das quais interdepende.

No seu livro, Raworth desenvolve um modelo batizado de “dónute” que na sua expressão gráfica combina 2 círculos concêntricos - um interno com a representação dos limiares de 12 indicadores sociais consensualizados como indispensáveis ao bem-estar humano e outro externo com os limites de 9 indicadores ecológicos internacionalmente acordados como essenciais à manutenção de condições mínimas para a subsistência da maioria das espécies biológicas, humana incluída. É entre os círculos, que funcionam como base e teto do modelo, que a biodiversidade e as civilizações podem manter-se. Rompido o seu tecido expõem-se a ameaças que podem conduzir ao seu desaparecimento.
O valor epistemológico do modelo de Raworth é imenso e talvez a autora possa vir a ser a segunda mulher a ganhar o Nobel da Economia, que em 49 edições foi entregue a 78 homens e a Elinor Ostrom em 2009.

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