Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Educação para a Paz no Escutismo

O que nos distingue

Escreve quem sabe

2017-11-24 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

“Para não mentir, não é necessário ser santo, basta ser honrado, porque não há coisa mais afrontosa, nem que maior horror faça a quem tem honra, que o mentir.”
Padre António Vieira

A temática da educação para a Paz tem uma presença fundamental no Movimento Escutista Mundial e um acolhimento muito especial no Escutismo Católico Português1, se hoje a ela volto, deve-se ao facto da Junta Central, designação do órgão executivo nacional, ter publicado, na Ordem de Serviço Nacional nº 681, de 31 de outubro de 2017, uma determinação sobre o Programa Mensageiros da Paz, da organização mundial escutista, com o seguinte teor:
«Considerando as recentes notícias veiculadas na imprensa internacional sobre a eventual inclusão, por parte das Nações Unidas, do Reino da Arábia Saudita e/ou da coligação de países árabes liderados pela Arábia Saudita no conflito do Iémen, na lista negra de países que maltratam crianças em conflitos armados,

Considerando que o Programa Mensageiros da Paz, promovido pela OMME, é financiado, entre outros, por instituições originárias do Reino da Arábia Saudita,
A Junta Central, reunida em 14 de outubro de 2017, determinou a suspensão temporária da promoção e oferta do Programa Mensageiros da Paz pelo CNE, até definição mais precisa, completa e definitiva da posição das Nações Unidas e da OMME relativamente a estas matérias.
Lisboa, 14 de outubro de 2017»

O programa Mensageiros da Paz, foi lançado oficialmente em setembro de 2011, pelos reis da Suécia e da Arábia Saudita, que disponibilizam os fundos necessários à sua promoção e aplicação. Este programa foi inspirado num outro: Dons para a Paz, que o escutismo mundial lançara, em finais de 2001, e que mobilizou mais de 10 milhões de escuteiros de 110 países, que promoveram ações para a paz nas suas comunidades.
Pouco tempo depois do lançamento deste novo programa, o dirigente Artur Pereira, produziu uma reflexão, num Conselho Nacional, levantando dúvidas sobre a origem dos fundos disponibilizados por um dos financiadores - a Arábia Saudita.

As diversas equipas nacionais do CNE mantiveram-se atentas à evolução da problemática levantada pelo Artur Pereira e, logo que a Organização das Nações Unidas confirmou as dúvidas suscitas, a Junta Central agiu preventivamente suspendendo a promoção e oferta deste progra- ma no Corpo Nacional de Escutas.

Esta tomada de posição, verdadeiramente exemplar e oportuna, por parte do nosso executivo nacional, que, ao ser comunicada à organização mundial e europeia do escutismo, deve motivar uma reflexão séria e profunda, mas também com consequências.
Não gostaria de ver estes dois níveis do escutismo internacional fingir que nada aconteceu, “assobiando para o ar”. Preferiria vê-los agir, motivados pelos quatro versos da Cantata de Paz, de Sophia de Mello Breyner: «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar / (...) / O nosso tempo é / Pecado organizado.” Pois, como nos diz Baden-Powell, “o escuteiro é ativo fazendo o bem e não passivo sendo bom”2.

Claro que, no CNE, sabemos bem que este programa não abriu o caminho para a Educação para a Paz que continuará como um vetor estruturante da nossa oferta educativa.
A posição assumida e publicada pela Junta Central foi “uma pedrada no charco da indiferença e do comodismo”, materializando, de certa forma, o alerta da poetisa, bem como, o desafio que o papa Francisco nos deixou, no dia 01 de janeiro de 2017 - o 50.º Dia Mundial da Paz, sob o título A não-violência: estilo de uma política para a paz: «Todos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir»3.

No ano de 2017, comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos, a violência e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum. «Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz»4.

1 - Ver crónicas publicadas nos dias: 21.out.2011 - “O Escutismo Educa para a Paz”; 04.jan.2013 - “Escuteiros: Mensageiros da Paz”; 09.jan.2015 - “Construtores de Paz”; 23.dez.2017 - “A Luz da Paz de Belém” e 12.out.2017 “Com Maria, Peregrino na Esperança e na Paz”.
2 - Baden-Powell, Escutismo para Rapazes, edição do CNE, Lisboa, 2011, p.288.
3 - Francisco, Regina Caeli, Belém, 25 de maio de 2014.
4 - Apelo, Assis, 20 de setembro de 2016

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