Correio do Minho

Braga, terça-feira

A era das incertezas

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2011-03-20 às 06h00

Carlos Pires

1. A complexidade de nosso tempo desacreditou os “profetas da certeza”. Esta frase do filósofo e economista norte-americano John Kenneth Galbraith, retirada do livro “A era da incerteza”, sintetiza a época em que vivemos - época na qual os acontecimentos sucedem de forma tão avassaladora que nada parece ser especial. Afinal, vivemos, trabalhamos e sonhamos por um amanhã que parece ser cada vez mais impossível de alcançar, pois que ele próprio se vai colando às vicissitudes do presente.
A contemporaneidade traz-nos grandes desafios, decorrentes do crescente avanço tecnológico e das rápidas transformações do mundo actual. Todos os dias caem dogmas e se levantam outros. Veja-se as repercussões da recente crise financeira no pensamento económico - poucos serão os capitalistas que hoje têm a certeza da inevitabilidade do triunfo do mercado. Veja-se como as redes sociais e a internet conseguiram influenciar sociedades que todos reputávamos como impermeáveis - quase ninguém acreditaria, há um ano, que o povo muçulmano se pudesse revoltar contra os seus déspotas políticos.
Não é, pois, difícil apontar exemplos de mudanças rápidas, no país e no mundo. Os portugueses, por exemplo, já sabiam que vinha aí um Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, mas saberiam que seria já? E tão violento assim? O que é que nos será exigido daqui a três meses? Tudo pode efectivamente acontecer!

2. Os recentes acontecimentos no Japão relançam a discussão em torno da energia nuclear, numa altura em que era vista por muitos como a alternativa à actual crise do petróleo e instrumento de combate ao aquecimento global. Depois de Hiroshima e Nagasaki, e desta feita fruto de uma catástrofe natural (um abalo e tsunami destruidores), os japoneses voltam a ser vítimas da tecnologia nuclear. A radioactividade resultante do desastre da Central de Fukushima parece já ter chegado a algumas zonas da Rússia e dos Estados Unidos da América, ironicamente os países obreiros do nuclear. E por todo o lado se lança a questão: o nuclear valerá mesmo a pena? A Europa repensa a decisão de prolongar a vida das suas centrais nucleares, tendo a Alemanha, inclusive, decidido suspender a medida. Em Espanha, José Rodrigues Zapatero promete tomar uma decisão com critérios puramente científicos. Recorde-se que uma das centrais espanholas - Almaraz - situa-se perto de Portugal, no distrito de Castelo Branco. (!)
Um académico britânico, da Universidade de Cambridge, relativizou os riscos da radioactividade para a saúde humana e descreveu o pânico em torno da crise nuclear japonesa como um fenómeno de psicologia de massas. Para o especialista, a verdadeira tragédia em curso no Japão é a do tsunami. O cientista ofereceu ainda alguns termos de comparação: “submeter um indivíduo a uma tomografia axial computadorizada equivale a colocá-lo a cerca de dois quilómetros do local da explosão da bomba de Hiroxima”; “a radioactividade natural de algumas regiões do oeste de Inglaterra é responsável por mil mortes por ano”. Não duvido! Mas parece evidente que o acidente, quando acontece, assume dimensões gigantescas e quase apocalípticas. Tanto basta para reavaliarmos a aposta no nuclear.

3. Nos últimos dias, muito se tem falado acerca da chamada 'geração parva', “geração rasca” ou mesmo “geração à rasca”, como já é apelidada a massa de jovens que nem estudam nem trabalham, ou que arriscam passar a vida a saltitar de um emprego precário para outro emprego precário.
Sabemos que a geração dos 30 anos é, entre todas as gerações, a que possui mais certificados. Resta-nos é saber se têm as necessárias qualificação e competências, as quais nem sempre acompanham os “canudos”. Sabemos que os pais procuraram dar a melhor formação aos filhos, no pressuposto de que lhes garantiam um futuro melhor - uma certeza que passou de gerações em gerações. O ensino superior passou a corresponder a autênticas fábricas de ilusões, que o mercado de trabalho não conseguia satisfazer, ou porque se criaram licenciaturas desajustadas às necessidades ou porque a qualidade do ensino superior se foi degradando e ajustando a uma democratização (mal feita) do ensino, com todos os facilitismos nela implicados.
Sabemos que os empregos não brotarão. E que o acesso aos serviços de saúde e a uma educação de qualidade será mais difícil. E que os apoios sociais diminuirão. Esta é a realidade. Logo, não vale a pena insistir na vitimização de uma única geração, esquecendo-nos, afinal, de que todas as gerações vivem e sofrem, no dia-a-dia, o mesmo problema. Pelo que, meus senhores e minhas senhoras sub-30, façam pela vida!
A incerteza e o risco são partes integrantes da sociedade contemporânea. O homem vive mudanças rápidas e constantes. E essa realidade assusta. Nesta época de incertezas, as nossas decisões devem ser flexíveis, ajustáveis, inovadoras, reinventadas e passíveis de aperfeiçoamento. Esta é a realidade, birras e proteccionismos à parte.

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