Correio do Minho

Braga, terça-feira

À espera do S. Geraldo e da política cultural

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2018-05-22 às 06h00

Jorge Cruz

O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos
na mentira, todos os dias.
(José Saramago)


O edifício do antigo cinema S. Geraldo, no Largo Carlos Amarante, vai ser um espaço de convergência entre arte, ciência e tecno- logia e o meio privilegiado para a criação, experimentação, aprendizagem, apresentação e exposição da produção em Media Arts". Esta foi, de facto, a promessa deixada por Ricardo Rio aos bracarenses antes das últimas eleições autárquicas mas a verdade é que de então para cá ainda não há sinais visíveis de que tal venha a acontecer, pelo menos nos tempos mais próximos.
Na altura estávamos em plena campanha eleitoral, período geralmente propício para avançar com os compromissos mais ousados foi enfatizado que o edifício, integrando a rede do Media Arts Center, poderia disponibilizar, quer espaços expositivos quer espaços de trabalho para residências artísticas, além de se transformar num espaço de acolhimento do projecto Starts, que permitirá estabelecer ligações entre os artistas e as empresas locais na definição de projectos conjuntos.

Agora, porém, quase um ano após a promessa eleitoral, o único avanço conhecido foi a aprovação do aumento, em cerca de 30 por cento, da renda mensal do edifício contíguo, destinado a sede da União de Freguesias de S. Lázaro e S. João do Souto. Convirá referir, a propósito, que a oposição considerou exagerados e até penalizadores do interesse público os valores dos alugueres em causa, posição que, aliás, já tinha sido adoptada em 2017, quando o assunto foi levado à reunião do executivo.
Em relação à antiga sala de cinema (antes havia sido salão recreativo e de festas), nada se conhece nem são observáveis no local quaisquer indícios de obras. Ora, esta aparente passividade, diria mesmo marasmo, não me parece minimamente compaginável com a tão propalada determinação de Ricardo Rio de que Braga venha a ser Capital Europeia da Cultura.
Curiosamente, ainda no início deste mês, num debate sobre o que é a cultura em Braga (Braga, capital de quê? Cultura, espaços e seus agentes, integrado no Desobedoc, mostra de cinema documental), a administradora executiva do Teatro Circo reconheceu que escasseiam espaços de exibição e de criação. Cláudia Leite, que também será responsável pelo tal Media Arts Center, também se referiu, na altura, à importância de existir uma estratégia na qual as pessoas se revejam e, concretamente sobre o S. Geraldo, assegurou que estão a ser pensadas formas flexíveis e abertas de dinamização cultural.

Da intervenção daquela responsável parece poder concluir-se que afinal o assunto não está esquecido. É certo que não se lobriga qualquer movimentação para a restauração e adaptação do edifício mas, pelos vistos, haverá quem esteja a reflectir sobre o papel futuro do novo espaço. Provavelmente devagar, muito devagarinho, para não cansar os neurónios dos alegados cismáticos.
O presidente da Câmara, afinal o primeiro responsável pela situação, também já se havia referido, na última reunião de Abril do executivo, ao edifício do S. Geraldo. Ricardo Rio sublinhou na altura que se está a trabalhar na memória descritiva do edifício para posteriormente se poder avançar com a elaboração do projeto de arquitetura. E foi mais longe quando assegurou ter o desejo de ver o espaço intervencionado já este ano para que no próximo ano possa estar ao serviço da comunidade enquanto Media Arts Center.

Palavras bonitas, animadoras até, o problema é que a cidade de Braga, que ostenta orgulhosamente a terceira posição entre as suas congéneres portuguesas, não pode continuar a contentar-se com uma série de eventos, pese embora o facto indesmentível de alguns deles serem de enorme valia e qualidade. Os responsáveis autárquicos têm obrigação de fazer muito melhor. A sua acção nessa área não pode nem deve esgotar-se num conjunto de actividades mais ou menos desgarradas, bem pelo contrário, têm o estrito dever de construir uma verdadeira política cultural se, de facto, almejam que a cidade algum dia venha a ostentar o título de Capital Europeia da Cultura.
Claro que para atingir tal objectivo, para acabar de uma vez por todas com dogmatismos e, consequentemente, com o actual estado de isolamento, impõe-se auscultar opiniões, conhecer sensibilidades, enfim, abrir a política cultural às pessoas. Só dessa forma, através de um processo transparente e participativo, se conseguirá obter bons resultados do ponto de vista da integração da cultura no quotidiano dos cidadãos. O resto, as acções dispersas mais ou menos relevantes, não passam de fogachadas, as mais das vezes sem qualquer fio condutor entre si e que, obviamente, nada têm a ver com uma verdadeira política cultural.

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