Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

A espetacularização das universidades

Beco sem saída

Ideias

2017-12-08 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Guy Debord, um dos representantes mais destacados da Internacional Situacionista, publicou em 1967 A sociedade do espectáculo e vinte e um anos mais tarde Comentários sobre a sociedade do espectáculo, dois ensaios que, tomados conjuntamente, fornecem um interessante instrumento de análise e de crítica do atual modo de funcionamento das instituições sociais nacionais, de que as universidades constituem um caso ilustrativo e não uma exceção.

Com efeito, se espreitarmos por detrás do manifesto, isto é, da diversidade das instituições de ensino superior portuguesas - umas mais vetustas outras mais recentes, umas mais tradicionalistas outras mais progressistas, umas mais corporativas outras mais abertas, umas colocando mais ênfase no ensino outras mais voltadas para a investigação, umas mais convencionais outras mais empreendedoras - todas parecem operar nos termos de um mesmo modelo, cada qual em diferentes graus, claro: o da espetacularização.

Parafraseando Frank Lloyd Wright, as nossas universidades apresentam, pois, essa essencial monotonia camuflada por diferenças cosméticas.
O esquema interpretativo debordiano deste tipo de fenómenos foi originalmente concebido para o exame dos regimes políticos, mas, julgo, pode ser empregue também, com as devidas adaptações, às instituições sociais, nomeadamente as universidades públicas.

David Boje, um investigador estadunidense, definiu o conceito deborniano de “espetáculo” como conotativo do “controlo institucional, muitas vezes violento e opressivo, que se disfarça como uma celebração de melhoramentos por via da reciclagem de pseudorreformas, de falsos desejos e de horizontes selecionados de evolução progressiva, sem delegação de poder e fomento de autonomia”.

A “espetacularização”, por consequência, seria, é, a consumação plena desse modo de dominação pela sua paradoxal aceitação e adoção generalizada nas organizações e sociedades auto-concebidas e auto-descritas como democráticas. O pensador francês qualificou-a de “difusa” na sua primeira referida obra, para contradistingui-la da que chamou “concentrada”, mais típica nos regimes autoritários e ditatoriais, mas, em 1988, reconheceu a tendência para a prevalência da forma menos pura da “espetacularização integrada”, que miscigena elementos das outras duas para se tornar ainda mais eficaz.

Débord identificou 5 características fundamentais neste esquema de controlo social e que contribuem para o seu sucesso. A 1ª é a do cultivo do segredo e da opacidade. Esconder o que se passa nos bastidores é a regra de ouro para se assegurar um bom espetáculo. Para se conseguir fazê-lo com mestria, porém, é necessário criar e recriar interfaces. A 2ª característica é, pois, a da obsessão com a renovação tecnológica, com a multiplicação de ecrãs (de plataformas), que mostram-escondem, que simulam, que, em suma, instauram um afastamento entre as pessoas, embora acompanhado da sensação de ele não existe. A 3ª consiste na engendração de amnésia coletiva, encargo que peritos sempre disponíveis, de modo consciente ou não assumem. Fazem-no produzindo PowerPoints cheios de “números inverificáveis, estatísticas incontroláveis, explicações inverosímeis e raciocínios insustentáveis”.

O seu propósito é claro: transformar-nos em espetadores mansos de discussões fúteis encerradas num eterno presente e num quimérico futuro. Passividade e frivolidade são, pois, as caraterísticas restantes, que bem sintetizam o ambiente que hoje prepondera nas universidades e outras instituições sociais lusas.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

17 Setembro 2021

Pensar o futuro

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho