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Braga, sexta-feira

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A estranha voz que saía da Igreja dos Remédios

O dia em que José Saramago passou em Padim da Graça

A estranha voz que saía da Igreja dos Remédios

Ideias

2021-06-13 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A cultura portuguesa está associada intrinsecamente à base católica, que já nos acompanha, desde a nossa fundação como nacionalidade.
Houve épocas em que o poder eclesiástico comparava-se, e até se superiorizava, ao poder secular. Todos temos conhecimento da forte influência exercida pela Inquisição durante um longo período de 300 anos (extinta a 5 de abril de 1821 depois de votação unânime das Cortes Constituintes).
A cultura portuguesa está associada intrinsecamente à base católica, que já nos acompanha, desde a nossa fundação como nacionalidade.
Houve épocas em que o poder eclesiástico comparava-se, e até se superiorizava, ao poder secular. Todos temos conhecimento da forte influência exercida pela Inquisição durante um longo período de 300 anos (extinta a 5 de abril de 1821 depois de votação unânime das Cortes Constituintes).

No entanto, foi após a Implantação da República que a Igreja sofreu um extenso ataque às suas tradições, profundamente enraizadas na nossa sociedade e na nossa cultura. Com a lei de separação, de 20 de abril de 1911, os enérgicos responsáveis políticos republicanos portugueses resolveram enveredar por um confronto direto e sistemático às tradições e aos bens católicos existentes no nosso país.
Esta lei provocou uma grande convulsão dentro da Igreja, levando a que, por exemplo, o reverendo José de Sousa Magalhães, pároco de S. Martinho do Campo (Valongo), tivesse que ser internado no Hospital Conde Ferreira, com distúrbios mentais provocados e agravados por esta norma republicana.
Por outro lado, estas mudanças políticas fizeram-se sentir com maior ênfase em Braga, por se tratar de uma região profundamente marcada pelas rígidas regras e tradições do catolicismo.
Nos primeiros anos do republicanismo em Braga, continuava a manter-se a tradição de diariamente os fiéis frequentarem as igrejas, onde a profunda devoção estava sempre presente nos comportamentos e atitudes destas gentes. Contudo, o ostracismo à Igreja demonstrado pelos republicanos provocava desconfiança em muitos fiéis.

Foi neste contexto de agitação política, religiosa e social, que Braga assistiu à demolição de uma igreja com grande tradição nesta região: a igreja dos Remédios, situada na freguesia de S. Lázaro.
Com o intuito de construir uma avenida que atravessasse a cidade, que a Câmara Municipal de Braga pretendeu adquirir o então Convento e Igreja dos Remédios, para aí passar a atual avenida da Liberdade. Por outro lado, a demolição destes edifícios libertaria terrenos para a construção de outra obra imponente, o Theatro Circo.
Assim, na sessão ordinária, realizada a 16 de março de 1911, a Comissão Municipal de Braga decidiu aprovar os votos de agradecimento ao Ministro das Finanças e Governador Civil, pela cedência à Camara de Braga da igreja dos Remédios.

Dois meses depois, na sessão ordinária da Comissão Municipal de Braga, ficou decidido proceder-se ao depósito das obras de arte existentes no extinto convento dos Remédios e “demolir o prédio, já pago, na avenida da Liberdade, empregando os materiais em obras municipais; reparar os muros pertencentes ao município e proceder à arrematação do órgão, sinos e retábulo da igreja dos Remédios”.
A partir dessa altura, iniciou-se um lento processo de destruição dos edifícios dos Remédios, que demoraria mais de dois anos. A demolição começou com o seu Convento, passando posteriormente para a demolição da igreja.
Em 1913, e quando apenas se mantinha em pé a torre interior da igreja dos Remédios, verificou-se a existência de inúmeras sepulturas cobertas com tampas de pedra, observando-se ainda a existência de vários brasões e dísticos, que comprovavam que aí se encontravam vários membros de gerações de famílias bracarenses.

Quando em agosto de 1913 se procedeu à demolição da torre da igreja, rapidamente se espalhou o boato em Braga que nas várias campas que existiam nesse templo, encontrava-se a de uma freira que, ao ver os pedreiros preparados para demolirem a torre, confrontou-os, bradando: “- Não lhe toquem! O que lhe tocar, morrerá!” 1
Perante esta voz assustadora, os pedreiros desataram a fugir de junto da torre, desistindo de a demolir.
Ao aperceber-se desta situação, logo muitos bracarenses resolveram aproximar-se do local, para com os próprios ouvidos tentarem ouvir a voz ameaçadora da freira, assim como com os seus próprios olhos tentarem ver algum sinal estranho que do fundo da torre pudesse aparecer!

O imaginário popular depressa propalou que o ruído da freira se ouvia de manhã e ao meio-dia, ao toque das “Avé-Marias” e ainda afirmavam alguns populares que essa voz fúnebre também se fazia ouvir à meia-noite!
Durante vários dias verificou-se uma autêntica romaria que se amontoava junto da torre da igreja dos Remédios. Contudo, a maior aglomeração verificava-se à noite, onde no local “juntava se ali numeroso povil, commentando o boato e anciando per ouvir a freira...”! 1

O desejo feroz de ver ou ouvir a freira fazia com que muitos destemidos teimassem em manter-se junto à torre da igreja até à meia-noite! Muitos deitavam-se junto às lages e com o ouvido junto às fendas existentes, juravam que a freira falava mesmo!
Na ocasião, muitos rapazes demonstravam a sua valentia e metiam-se pelos canos que lá se encontravam, gritando através deles, tentando convencer o povo de que se tratava mesmo da existência efetiva de uma “voz sepulchral”.

Este movimento de populares manteve-se dia e noite junto da torre da igreja dos Remédios, apenas diluindo a presença de pessoas pelo desgaste que esta situação provocava, sem de facto conseguirem comprovar a existência misteriosa da freira, e ainda porque as autoridades policiais começaram a impedir as pessoas de se aproximarem desse local!
Quando o povo deixou de comparecer junto da torre, os pedreiros meteram mãos à obra e, enchendo-se de coragem, deitaram-na abaixo.
Em relação às ossadas aí existentes, as mesmas acabaram por ser trasladadas para o cemitério de Braga.
Durante alguns anos, os bracarenses recordaram a freira que existia na igreja dos Remédios e que, através da sua voz tumular, tentou impedir que os pedreiros deitassem a torre abaixo!

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