Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A estranheza de Passos Coelho

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Ideias

2013-12-17 às 06h00

Jorge Cruz

“Estranho”, foi o vocábulo utilizado pelo Primeiro-Ministro de Portugal para classificar o comportamento de Christine Lagarde, quando a responsável máxima do Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu erros nos programas de ajuda a Portugal e à Grécia.
De facto, numa entrevista concedida há dias à TSF e TVI Passos Coelho confirmou perante os portugueses o “modus operandi” do Governo nas negociações com a troika: tibieza e subserviência.

Ou seja, quando o líder de um Governo que tem um país depauperado devido às draconianas medidas de austeridade tem a oportunidade de criticar com a maior dureza a irresponsabilidade do FMI, opta por não o fazer, renunciando a defender os portugueses, para se mostrar bem comportado. Compreende-se agora melhor a vontade de ir mais além do que a troika impunha: tudo indica que afinal Passos Coelho se rendeu desde a primeira hora ao tipo de ajustamento, brutal, que foi desenhado para Portugal.

Naturalmente, este tipo de actuação do Primeiro-Ministro não recolhe a simpatia nem o apoio da generalidade dos portugueses. Na sua esmagadora maioria, estão longe de se rever na política de austeridade que lhes tem vindo a ser imposta. O clima que se respira no país real não é, claramente, o mesmo que se vive no Palácio de S. Bento. E nem se pode afirmar, como é prática habitual, que são sempre os mesmos a queixar-se, ou seja, sindicatos e forças de esquerda, porque as manifestações, críticas e denúncias têm partido praticamente de todos os sectores.
Ainda este fim-de-semana o presidente da Cáritas acusou o governo de ter levado “longe demais a preocupação pelo défice e dívida” ao mesmo tempo que fazia questão de lembrar que “acima” disso “estão as pessoas”.

Numa entrevista à TSF e DN, Eugénio Fonseca comentou a dramática situação que os portugueses têm enfrentado nestes anos de intervenção externa, em particular as questões do desemprego, da pobreza e da luta contra a fome, áreas que a organização católica bem conhece, tendo considerado que o Governo “foi muito disciplinado” em relação às exigências da troika. Para a Cáritas, como para tantos agentes políticos e a generalidade dos observadores e comentadores, nos quais humildemente me incluo, “o que tem inquinado tudo isto é o sistema financeiro a comandar a política (…) esquecendo-se e desvalorizando as pessoas”.

Claro que as recentes declarações da presidente do FMI também mereceram a crítica e repúdio de Eugénio Fonseca como, de resto, já haviam sido censuradas, por exemplo, por Marques Mendes. De facto, o responsável pela Cáritas tem toda a razão quando disse que as palavras de Christine Lagarde roçam o cinismo até porque, entretanto, os erros cometidos provocaram “muito, muito sofrimento”.

“Mais do que estranhei (as declarações de Lagarde), ficou dentro de mim uma certa mágoa. Pessoalmente, das abordagens que fui fazendo, percebi - e desde 2010 que venho dizendo isso - que era preciso pedir alargamento do prazo, e era-me sempre aconselhado que não dissesse isso porque fragilizava a nossa posição perante a troika”, enfatizou ainda o presidente da Cáritas, recordando que, por essa razão, “o nosso Governo levou longe demais esta preocupação pelo défice e pela dívida”.

Já antes, no comentário semanal na SIC, Marques Mendes tinha assegurado que os responsáveis pelo programa de ajuda externa a Portugal “estão a dizer uma coisa e a fazer exactamente o contrário”, razão porque considerou que ou são “um bando de hipócritas ou de irresponsáveis, ou talvez os dois”.

O antigo líder do PSD lembrou com lucidez que a Europa está a defender a austeridade e não o crescimento enquanto a presidente do FMI faz mea culpa ao admitir que “houve erros nos programas de ajuda a Portugal e à Grécia”. Ou seja, “houve uma redução do défice muito rápida enquanto deveríamos ter distribuído melhor a austeridade”.

O choque de Marques Mendes pela ausência de qualquer “palavra de perdão, arrependimento ou mudança de atitude, visto que a troika ainda cá está e não fez nada para mudar a situação”, é naturalmente partilhada pelos milhões de portugueses que continuam a sofrer na pele as consequências dos “sacrifícios em exagero”.
Marques Mendes, que também é conselheiro de Estado, tem igualmente razão quando afirma, naquilo que parece ser um recado com vários destinatários, que “o cidadão normal, que não é licenciado em economia nem em política, diz que afinal esta gente tem duas caras e deixa de confiar nos líderes”.

A juntar a tudo isto, nos últimos dias o Tribunal de Contas (TdC) veio arrasar o Plano de Redução e Melhoria da Administração Central do Estado (PREMAC) ao considerar que os objectivos fixados pelo governo não passaram de um projecto de intenções com impacto reduzido.
No relatório, o TdC refere mesmo “falta de rigor e fiabilidade” das previsões orçamentais e acentua que o plano foi aplicado apenas a 16 por cento do universo da administração e, mesmo nesse, foi “sobreavaliado”.

O TdC considera que os impactos financeiros são desconhecidos e admite que venha a ocorrer um aumento de despesa, acusando ainda o governo de ter condicionado os trabalhos de auditoria ao não disponibilizar informação relevante.
Pode-se, pois, concluir que afinal as famigeradas reformas do Governo atingiram fundamentalmente os trabalhadores - os cortes na Segurança Social, o mercado laboral, enfim, os direitos dos trabalhadores. A máquina do Estado mantém-se quase na mesma, como demonstra este relatório do Tribunal de Contas.
Enfim, mais uma daquelas trapalhadas em que o governo é fértil e que apenas serve para aumentar o descrédito na classe política.

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