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A estratégia cultural de Braga 2020-2030 (II)

Preso por ter cão... o Estanislau:

A estratégia cultural de Braga 2020-2030 (II)

Escreve quem sabe

2020-04-08 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Entre este artigo e o anterior, de 11 de Março, instalou-se e permanece o intervalo da pandemia COVID 19, assunto suficiente para um silêncio ponderado e estudioso, nada propício a devaneios de opinião. Mas um artigo é um artigo e, na volatilidade da imprensa, este há-de ficar como prova de reflexão em situação de confinamento e isolamento social. A Pandemia abriu o alçapão da vertigem cultural: olhando para trás, sabemos quanto ficou feito e por fazer, olhando para baixo e para a frente tudo se problematiza e se questiona. Com toda a socialização em questionamento de futuro e em paragem de produção massiva, confinados às redes virtuais e aos meios de comunicação, resta-nos reanalisar, rever, reapreciar, re-perspectivar. Posto isto, o documento Estratégia Cultural de Braga 2020-2030 fica em que pé?

Fica no arquivo dos espelhos. Ou seja, fica como monumento de um tempo e de uma forma de ver e de programar que nos reflectiu enquanto cidade, enquanto região e enquanto país e enquanto mundo. Vamos regressar a uma interioridade. Encontrei um pensamento de Jorge de Sena, por via de um trabalho que tenho em mãos, que me surge como âncora possível para este presente em que estamos. O curioso deste pensamento é ele ter a idade inicial do poeta Jorge de Sena, embora redigido uns anos mais tarde que a sua primeira publicação poética «Perseguição, 1942), tinha o poeta 31 anos, e trocava então correspondência com Manuel Terroso, o poeta barcelense do tal estudo em que ando ocupado. Escreveu Jorge de Sena: «Dever inadiável da cultura é refazer-se; mas, em Portugal, corre-se constantemente o perigo de querer refazer o que, para tal, precisaria de estar feito, de algum modo, antes. A descoberta constante é a única maneira de, ao mesmo tempo, evitar-se a fossilização a que, como superficiais, tendemos, e a fascinação do «novo» a que, como marginais, nos sujeitamos. Mas essa descoberta não é possível sem escolaridade sólida e sem inquirição independentes.

Escolaridade não é a substituição mecânica de umas «autoridades» por outras; inquirição não é o puro capricho de deambular por entre as novidades literárias, as modas, os fascínios. Uma e outra são, se sérias e reais, precisamente aquele pudor e aquela humildade, de que se faz um ensaísmo honesto.» (Sena, Jorge. O Dogma da trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios. Porto: Edições Asa, 1994, p.17) No documento estratégico de Braga toma-se a definição de cultura dada pela Unesco em 2001: ¨O conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as formas de viver em comunidade, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.»

Duas linhas à frente, o documento não hesita em caracterizar a cultura em Braga: «Do mesmo modo, com algumas notáveis exceções, a criação artística profissional bracarense ainda tem um longo caminho a percorrer; e a interpretação do património, apesar dos seus assinaláveis recursos e investimentos, não providencia uma experiência qualificada a quem o visita.» As novidades, as modas, os fascínios e a substituição mecânica das autoridades, tudo apontando para uma razão crítica inspirada na humildade e no pudor. Eis um novo caminho que se faz bem, para já, neste modo imposto de reclusão e contenção social.

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