Correio do Minho

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A faca

Derrota à francesa

A faca

Escreve quem sabe

2023-06-11 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Foi a faca que chamou o homem ao horror. Disse-lhe a faca: – Tu não existes. Tu nada és. Acredito, até, que nem consigas empunhar-me, levar-me para além de mim.
Terá o homem feito um ensaio para rebater o encantamento hediondo da faca. Num derradeiro rebate, pressinto que tenha tentado agarrar-se a alguma coisa que obviasse a queda. Eu tê-lo-ia feito. Corrijo-me: eu já o fiz, seguramente, porque os negros não se proíbem de nos dar uns encontrões e eu, que tão humano me sinto, nem sempre me vejo a confortável distância de desesperos. Eu melhore! Eu melhore!

Uma sorte me assista a mim, eventualmente a ti, leitor bondoso, se por este correr de olhos te convoco para negrumes teus. Suplantados, naturalmente, se eu estas linhas escrevo, se tu as lês. Mas sim, a sorte de inédito nadar até pé, sem mestria aprendida, a sorte de chegar a chão largo, vencendo pista instável de encosta a encosta, suplantando vertigens e passadas trôpegas. Uma sorte que não tenha assistido ao homem da faca.
De onde nos virá a lucidez, leitor amigo? Sei que comigo te interrogas, e liberto-te do desconforto de me dizeres que não acreditas que eu aduza um iota em matéria desta transcendência. Para o meu bico não sendo estes mistérios, deixa-me que ao homem da faca acrescente o homem do saco. Para bem do que exponho, além da alusão a Manuel para lá dos 70, espero que na tua televisão tivesses visto jovem silhueta, enfrentando e correndo atrás do homem da faca, brandindo uma mochila, feita arma e escudo.

E agora quero que sorrias, dedicado leitor. Vê só o engraçado da questão: quantos temores não espevitamos nós com o homem-do-saco, figura antitética ao bondosíssimo pai-natal! Ao alto destas crónicas se indica que sou – que fui! – psicólogo. Não! Eu não denuncio como liminarmente perversas as fábulas que figuram o sombrio ou o lunar, por oposto ao radiante e ao mavioso, isto porque com tudo nos compomos, e valha enunciado que não aprofundo.

Drama acontecido pouco após as 9 da manhã. Discorriam as televisões, à tardinha, quem seria o sumido herói que se entrepusera, evitando novos golpes, enquanto a força policial não acorria. Desaparecera, não ficara para louros, para cantar vantagem de microfone diante da cara. Teve de aparecer, hoje, no dia seguinte aos factos. Ontem já se aflorava que merecedor era de reconhecimento, de condecoração. Ouvi-o. Pareceu-me tão incomodado hoje, como determinado ontem. Disse qualquer coisa do gênero de não poder não intervir. De passagem, quase como se pedisse desculpa, disse-se uma pessoa de fé.
Ah! Não lho pergunto, mas acho que sei o que quis dizer. Sim, eu erre, mas quero crer que nos diga que, sendo pessoa de fé, teve Deus consigo, como por mal teria o homem da faca um diabo dentro de si.
Velho e risível esquema. Sim, eu sei, leitor incrédulo, que a vida não está para deuses e que, nestes casos, inevitavelmente se apouca um divino que condescende com a erupção do Mal, mas vê que torto pensa quem acha que o paraíso celeste só pode resultar de duplicado de modelo apurado na terra primeira.

Terra primeira, por terra primeira, que lembranças não tem já o homem da faca da terra em que nasceu, e onde mais não venha a sonhar? Se o homem que hoje execramos é a mão da faca: quem é o antebraço? Quem é o braço? Quem é o torso?
Muito concorre para o absurdo de trespassar quatro crianças. Calvário sobre calvário, nenhum alívio conhecerá por anos o homem da faca. Mas nós com ele, bom é que queiramos ver as facas que empunhamos. Convicto estou, porém, que não seja exercício do nosso agrado, quanto mais não seja porque a soberba o não permita.

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