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A família, os padrinhos e as relações ilícitas

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A família, os padrinhos e as relações ilícitas

Ideias

2019-04-08 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Por estes dias, o país político tem andado a discutir a composição dos gabinetes governamentais e os lugares que são aí ocupados pelos familiares daqueles que nos governam. É uma discussão pertinente. Mas muitíssimo incompleta. É preciso alargá-la ao parlamento, às câmaras municipais, às empresas públicas... E integrar aí os chamados “padrinhos” e, mesmo correndo o risco de abrir sérias crises familiares, poder-se-ia também falar das relações extramatrimoniais e da forma como, à custa disso, certas pessoas têm carreiras verdadeiramente meteóricas...

Os contextos pré-eleitorais proporcionam sempre curiosos debates. Este ano, abriu-se uma intensíssima noticiabilidade e uma frente partidária sobre as relações de parentesco daqueles que trabalham nos gabinetes dos ministros e dos secretários de Estado. O primeiro-ministro cedo veio justificar que a recente remodelação governamental em nada alterou a composição do Conselho de Ministros. Tem razão. A recente nomeada ministra da Presidência e da Modernização Administrativa sempre participou nessas reuniões como secretária de Estado Adjunta e, a partir desse lugar, assumia uma das posições de maior relevo dentro do executivo, embora num lugar menos visível do que aquele que ocupa agora. O grau de parentesco direto com o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social foi o mote para uma discussão que provocou uma espécie de caça às bruxas onde se confunde a essência do problema com aspectos acessórios e, por isso, demagógicos. Mas nada disso apaga o que aqui é importante: o debate sobre os critérios subjacentes à nomeação daqueles que ocupam cargos públicos e daqueles que os vão assessorando...

Até agora, a polémica circunscreveu-se ao Governo e, desde logo, se percebeu que este não é um problema deste executivo. Cavaco Silva, de forma algo leviana, lembrou-se de dizer que nas suas sucessivas equipas nunca houve relações familiares, mas os relatos jornalísticos da altura, nomeadamente o truculento O Independente, dirigido na altura por Paulo Portas, vieram desmenti-lo. Convém também acrescentar que o subterrâneo de boa parte das nomeações nunca terá chegado ao conhecimento dos jornalistas...
No entanto, que ninguém pense que esta questão apenas diz respeito ao Governo. Nada disso! Analisem-se com pormenor os gabinetes da Assembleia da República, monitorizem-se os serviços das câmaras municipais... certamente que não faltará matéria jornalística para noticiar e muitos debates para fazer.

Claro que apenas estamos aqui a abordar a ponta do iceberg. Porque o problema é mais fundo. Para além dos laços familiares, existem os compadrios ou as proteções de que certas pessoas beneficiam que lhes reservam situações profissionais bem confortáveis, sem que nisso entre em linha de conta o mérito que (não) se tem. Não falamos aqui de relações familiares, mas de certas cumplicidades que se vão construindo entre determinadas pessoas que puxam sempre os mesmos para uma determinada centralidade, sem que para isso apresentem as devidas competências. Apenas figuram em certos cargos ou lhes são atribuídos certos trabalhos, porque mão amiga aí os coloca. E as perversidades que isso gera todos nós as conhecemos muito bem...

É preciso aqui acrescentar outra variável que tanta influência tem em certos contextos: as relações extraconjugais que certos homens ou mulheres desenvolvem com as suas chefias. Por norma, os envolvidos pensam que se trata aqui de um segredo desconhecido de todos, insistindo em ignorar que esses casos são profusamente comentado... E aí estão as maçãs podres a saltar vertiginosamente numa carreira cujas linhas vermelhas são ostensivamente pisadas.
Como se resolve tudo isto? O Presidente da República veio falar na necessidade de se aperfeiçoar o quadro legislativo. As leis não resolvem nada. Falamos aqui de Ética. Que não se apregoa. Concretiza-se. Todos os dias, sem ser necessário gritar aos quatro ventos de que lado queremos estar. Aqueles que nos conhecem sabem como as nossas carreiras profissionais são construídas. Para mim, isso é o que mais importa.

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