Correio do Minho

Braga, sábado

A Fiel Amiga

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2014-08-26 às 06h00

Escritor

Mário Viana

Sempre que aquele carro estaciona na rua, ela aparece, vinda do nada, guiada por um imperceptível fio de cheiro até ali. Por onde anda, ninguém sabe, mas, se o carro aparca ali, ela aparece. É assim há dois anos.
Branca, com malhas castanhas, perna curta, orelha esquerda levantada e olhos que parecem de gente. Na sua peugada, o filho, outro cão vadio como ela, que se assemelha a uma bola de pêlo eriçado e sujo.

Acampam à volta do carro, abrigando-se agora da canícula na sombra dos prédios, deitados numa cama de pedra, contra o lancil do passeio. Mas, se alguém se aproxima, ou se os carros fazem manobras de estacionamento, logo se afastam prudentemente. Quando algum dos moradores da rua lhes leva água ou comida, parecem agradecer com os olhos, mas nunca se deixam tocar por ninguém.

Deitada na sua indolência, a cadela mal se move, focinho comprido no chão, olhos atentos ao seu redor. O filhote, que se mantém por perto, mas guardando-lhe respeitosa distância, está sempre pronto a assanhar-se, se vê outros cães, mesmo à trela dos donos. E ladra-lhes, até os perder de vista, como se fosse o dono da rua.

Com uma paciência infinita, esperam, dia e noite, noite e dia, sem se saber por quê. Mas, um destes dias, percebi: mal o dono do carro se aproximou, levantaram-se de pronto e a cadela, de olhar meigo, fazendo acenos festivos com a cauda, logo se lhe dirigiu. O homem fez-lhe uma carícia, foi ao carro e voltou a entrar em casa. E os cães, com a mesma paciência, retomaram a espera.
No dia seguinte, o carro partiu. Mal dobrou a esquina, os cães voltaram a pôr-se em marcha para parte incerta.

Intrigado com a história, indaguei e fiquei a saber o que vos transmito agora: que aquele homem, dois anos atrás, condoído da situação daquela cadela, que vadiava por uma rua que ele então frequentava, lhe deu comida e atenções. O bicho nunca mais o esqueceu. Como chegou aqui, não se sabe, que as duas ruas onde se passa a história ainda são distantes uma da outra. Mas chegou. E desapareceu e reapareceu muitas vezes, fazendo jus à proverbial fidelidade canina.

Nem de propósito, passou estes dias na TV um filme intitulado “Hachiko - Amigo para Sempre”, uma história passada no Japão dos anos 20: todas as manhãs, um cão acompanha o seu dono, um professor universitário, até à estação de comboios, voltando para o esperar ao fim da tarde. Um dia, o professor não regressa, por ter falecido em consequência dum derrame, mas o cão vai esperá-lo em vão, todos os dias, durante nove anos, até morrer também.

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