Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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A fruta e os frutos do Minho

A sociedade e os comportamentos

A fruta e os frutos do Minho

Ideias

2019-09-15 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quem percorre as freguesias dos concelhos do Minho depara-se, nesta altura do ano, com árvores repletas de fruta. Trata-se de fruta que cresceu de forma natural, marcada por enorme pureza e com um sabor inconfundível… a fruta.
Maçãs, peras, quivis, uvas, marmelos, figos, amoras e ameixas são alguns dos exemplos da fruta que prolifera por estes campos minhotos, nesta altura do ano. Vemos, também, que muita apodrece, ou nas árvores, ou depois de caírem ao chão.
Há umas semanas soubemos que um habitante de Cabreiros (concelho de Braga), oferece ameixas e maçãs aos habitantes da freguesia, ou de outras freguesias, que passem junto ao muro da sua habitação, onde podem recolher pequenos sacos de um ou dois quilos de fruta. Trata-se de uma iniciativa de enorme humanismo, pois oferece a quem aprecia, fruta de qualidade.
Nas próximas semanas (a comprovarmos pelo que acontece em anos anteriores) iremos assistir à fruta que apodrece nas árvores e também no chão. Fruta que não é consumida e nem sequer é aproveitada para os animais. Trata-se, repito, de fruta de enorme qualidade e com sabor… a fruta. No entanto, assistimos à venda, nos supermercados, de fruta com bom aspeto exterior, mas de discutível qualidade. Trata-se de uma fruta vendida a preços elevados, que dura poucos dias em bom estado. Em muitos casos, nem sabemos qual a origem dessa fruta.
Fazendo jus à enorme capacidade de reinvenção dos portugueses, parece-me que, se fosse constituída uma empresa que se dedicasse à recolha e venda desta fruta que prolifera no Minho, teria enorme mercado, ajudaria os proprietários dessas árvores de fruta e contribuíam para a melhoria da saúde pública, devido ao consumo de alimentos mais saudáveis.
Imaginem nesta época as toneladas de peras, de maçãs, de marmelos, de quivis ou até de figos que poderiam ser recolhidos na nossa região? Imaginem as toneladas de nozes, de castanhas, de dióspiros, de laranjas, de limões ou de tangerinas, que poderiam ser recolhidas nos últimos meses e nos primeiros meses de cada ano? Imaginem a quantidade de morangos e cerejas que poderiam ser recolhidos nos meses de abril, maio e julho?
A riqueza da região do Minho traduz-se na oferta de uma variedade de fruta, durante todo o ano. Atendendo ao desperdício que se verifica, a criação de uma empresa de recolha desta fruta teria um enorme alcance económico e até social na nossa região. Também a realização de conservas, doces e compotas, com toda esta fruta que por aqui prolifera, poderia ser outro destino a dar.
Até há cerca de três décadas, antes da existência dos super e hipermercados, os minhotos guardavam a fruta da época em casa. As maçãs, as peras, as nozes, castanhas ou os dióspiros, duravam três, quatro ou até cinco meses depois de serem recolhidos. Cuidadosamente reservados, muitas vezes envoltos em palha, assim mantinham o seu estado natural e, principalmente, o seu sabor inconfundível. Hoje, a fruta que compramos nos supermercados, dura três, quatro ou cinco...dias, no estado de adequado consumo!
Antigamente, os habitantes que viviam na cidade e dificilmente tinham árvores de fruta em casa, podiam comprar a fruta da época às “vendedeiras”, que percorriam as ruas de Braga apregoando a qualidade da fruta que transportavam. Na obra “Ao Compasso das semanas...”, Braga, 1958, Aníbal Mendonça relata que nessa altura (década de cinquenta) verificava-se que em Braga “de porta em porta, apareceram agora as vendedeiras de morangos a apregoar e a oferecer insistentemente o delicioso fruto”. O autor acrescentava ainda que “têm alguma coisa de supramamente distinto e amoroso, na sua magnificência formal, e é justo, por isso mesmo, respeitá-los e tratá-los com pacientes e minuciosas cautelas a fim de que conservem o mais tempo possível o seu prestígio ornamental e a sua frescura vitoriosa”.
O mesmo autor relata, na obra “Folhas que reverdecem”, Braga, 1957, que as cerejas do Minho são como as andorinhas: “mensageiras e peregrinas da inefável Primavera”. Acrescenta ainda que as cerejas pendem nas árvores como autênticos “brincos curtos de meninas e, nas distâncias verdejantes do Minho, têm por vezes rutilações baças de rubis”. As cerejeiras são muito generosas, pois crescem sem exigir cuidados extremos, “alimentam o homem, fornecem sombra nas carnículas ásperas, abriga os pássaros e ainda lhes dá de comer, resiste às intempéries, vergada como junco na onda da ventania, sem nada em troca pedir, e ainda a sua madeira, seca e bem tratada, vale para a trave, para a arca, para a mobília, com um doce e aromado colorido”.
À semelhança do que refere Aníbal Mendonça, o que hoje parece estar a faltar, na nossa região, “é o sentido da exploração comercial, o apuramento da qualidade” dos nossos produtos e, nesta caso, da fruta de excelência que aqui existe, que se vai perdendo, e que poderia dar...muitos frutos.

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