Correio do Minho

Braga,

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A greve dos motoristas de matérias perigosas

Muita desconfiança é patológica

A greve dos motoristas de matérias perigosas

Ideias

2019-09-06 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Depois de muito refletir, tenho de concluir que o assunto mais relevante dos últimos dois meses foi a greve dos motoristas de matérias perigosas. E a pergunta inicial é esta: como se explica que algumas centenas de motoristas, recentemente associados em sindicato, conseguiram abalar o país?
Demonstraram que, no emaranhado de leis, é possível criar uma associação sindical, ligada a um determinado setor estratégico, com força suficiente para paralisar a economia e a sociedade portuguesa. E haverá outros setores passíveis de serem controlados por pequenos sindicatos, que estrategicamente dirigidos, têm consequências que extravasam as meras relações de trabalho. E se estes sindicatos se relacionarem com associações patronais cartelizadas, como a ANTRAM, o problema pode tornar-se muito sério.
Voltando à pergunta inicial: porque é que isto aconteceu? Aconteceu porque a política de desenvolvimento iniciada com o cavaquismo de apostar exclusivamente na construção de auto estradas e no transporte por camião é errada. O transporte marítimo foi abandonado, e não deveria ter acontecido, já que a atividade económica localiza-se no litoral. Também a ferrovia não funciona. Na prática, apenas se modernizou a linha do norte, mas os transportes de mercadorias deixaram de ter importância, apesar de os custos serem muito mais baixos. Foi a política do betão, iniciada por Cavaco, mas que todos os governos posteriores a subscreveram alegremente.
Mas não foi apenas a política do betão que enviesou a economia portuguesa. Também as nacionalizações, em especial os monopólios naturais, deixaram o sistema económico nas mãos de alguns que podem chantagear o país, quando lhes apetecer. Aí têm o aborto que criaram. Têm aquilo que muitos desejavam: um Estado fraco, não um Estado mínimo, porque o Estado deixou de ser o centro do poder. Agora negoceia apenas.
A segunda questão relaciona-se com a lei da greve. A lei que existe, datada de 1974, corresponde a outro tipo de sociedade que não é a que existe atualmente. Terá que ser completamente alterada, não no sentido de restringir o direito à greve, mas com o objetivo de fazer recair na entidade patronal os custos da paralisação.
Quando uma greve causa prejuízos predominantemente aos cidadãos, tenho dúvidas que seja legítima. É por isso que se discute atualmente que possa haver greve dos serviços públicos, em especial de determinadas atividades ligadas ao sistema político, como sejam as polícias e as magistraturas.
Uma lição se pode tirar. É o de que as eleições têm um impacto reduzido, já que este modelo socioeconómico foi sendo construído ao longo de décadas e impõe-se aos partidos do arco do poder. E, é por isso, que se caminha perigosamente para um rutura, patrocinada pelos partidos populistas de extrema-direita. Não é por acaso que vão tendo sucesso eleitoral um pouco por todo o lado.

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