Correio do Minho

Braga, terça-feira

A Ilha da Saudade, de Renato Córdoba

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2010-08-17 às 06h00

Escritor

Flutuo sobre as águas do mar; um mar de pessoas; à procura do teu olhar; o meu olhar, que reencontro sempre reflectido na minha história; nas minhas acções; na vida que nem sempre foi só minha, porque também pertenço a essas águas, de onde às vezes minha alma emerge atrás de respostas ocultas além da linha do horizonte, onde o sol se esconde e a alma chora por causa dos sonhos e da saudade dos portos que ainda estão por vir, mas que existem desde sempre em meu coração.
Sempre que paro, uma ilha surge à minha volta, secando os meus pés sobre a areia fina que não são mais do que grãos de memória que se juntam para formar um conto. A brisa fresca carrega o cheiro de outros tempos; vidas que acumulei numa só. Então adormeço; quase sempre é sonhando que me sinto acordado. O vento sopra e a terra dissolve-se na água. Sozinho, quase perdido, volto a mergulhar. Minha alma funde-se com as outras, às vezes também o corpo; mas a unidade permanece; a essência existencial. A vida enche-me de anseios, frustrações, pois nega saciar desejos que a natureza faz o corpo querer. Os dias tornam-se artificiais; a nostalgia me leva de volta à ilha, que está sempre diferente a cada visita. Remeto-me ao silêncio e tudo se dissipa.
De volta à origem, rendo-me à imensidão do profundo vazio; sem luz, o tempo também não existe; mas algo começa a acontecer; o desejo de viver envolve-me, sinto a intenção da criação absoluta tomar conta de todo o meu ser, e a luz surge sem emanar de nenhuma fonte, livre, e me ilumina; começo a regressar ao mundo, primeiro devagar, como a sombra de um eclipse que volta a revelar o sol; depois depressa, cada vez mais veloz, faço a reentrada na atmosfera como um meteoro atraído pela força da gravidade gerada pelo amor, e a saudade daqueles que me são queridos; vejo-os com os olhos postos em mim e derramo-me nos seus braços; o impacto enche-me os pulmões de ar novamente; devolvido à condição humana. Nestes dias, caminhamos juntos na praia, ao pôr-do-sol, com pequenas ondas a molhar os pés. Sinto-me como quem olha o céu quando as nuvens se dissipam veloz após uma tempestade, deixando a luz voltar a aquecer a terra e secar as mágoas; paz novamente.
Volto novamente em direcção às águas profundas, junto das outras pessoas, atraído pela corrente que me leva em direcção aos sonhos a alcançar; pronto para abraçar as oportunidades que o momento tem a oferecer; preparado para valorizar cada detalhe, porque é o percurso que define a história; a dádiva da vida é o presente.
Todavia, nas noites de céu estrelado, volto a flutuar; uma nova ilha surge à minha volta, mas à medida que os anos passam… suas praias tornam-se maiores.

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