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A imaginação ao poder no Maio de 1968

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A imaginação ao poder no Maio de 1968

Ideias

2018-05-06 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Decorrem por estes dias os 50 anos sobre um dos momentos mais fracturantes, míticos e simbólicos da História Contemporânea, exactamente os acontecimentos que entre Maio e Junho de 1968 revolucionaram a França e sobretudo a sua capital, Paris, envolvendo milhões de pessoas e deixando marcas profundas no viver das gerações posteriores.
Tudo começou em 3 de Maio na Sorbonne e durou cerca de mês e meio, em protesto contra o general De Gaulle. A revolta dos estudantes universitários espalhou-se por toda a sociedade e logrou o apoio de todas as classes. Nele se envolveram nomes emblemáticos do pensamento e da cultura francesa, como o filósofo existencialista Jean Paul Sartre, o realizador Jean-Luc Godard e o antigo líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, figura representativa deste acontecimento.
Por lá andavam jovens portugueses de diferentes formações, parte dos quais fugidos à guerra colonial que estalou em 1961 em Angola e todos certamente escapando ao regime concentracionário de Oliveira Salazar, já na fase acentuada de decrepitude, embora com a sanha e os aparelhos repressivos do Estado Novo. Exilados políticos do regime, muitos eram. Todos na ânsia de experimentar a liberdade que andava por lá mas ninguém conseguia lobrigar por aqui.

Também eles participaram nas barricadas, protegeram-se da polícia, atiraram pedras, tentaram aliciar os emigrantes portugueses para a sua luta comum. Falamos do cartoonista Vasco de Castro, do cantor Luís Cília, de Fernando Pereira Marques, Carlos Monjardino, Aires Rodrigues, Maria Lamas, António José Saraiva (que publicaria em 1970 a polémica obra Maio e a crise da civilização burguesa, que haveria de suscitar amplo debate intelectual na altura), a sua mulher Teresa Rita Lopes, o encenador Hélder Costa, Moisés Espírito Santo, a jornalista Alice Vieira e Vilaverde Cabral, entre muitos outros que viriam a ser personagens influentes em Portugal, em diferentes áreas, no pós 25 de Abril, que recolhe aromas e perfumes da revolução de Maio. A maior parte, felizmente, hoje ainda viva, entre nós.
Os jovens revoltosos não queriam o poder, queriam apenas transformar o mundo. Ou mudar a vida. Afirmava-se na altura e reafirma-se por estes dias, evocando o cinquentenário deste movimento que condicionou a política e influenciou os costumes e a sociedade futura. São célebres os seus lemas utópicos e eivados dos sonhos maiores, profundamente poéticos, tais como: a imaginação ao poder, proibido proibir, sejamos realistas, exijamos o impossível, a barricada fecha a rua, mas abre o caminho, o aborrecimento é contra-revolucionário e não me libertem, eu encarrego-me disso.

Por alturas do Maio de 1968, eram já muitos milhares (mais de 300 000) os portugueses que estavam a laborar nos arredores de Paris, a colaborar na reconstrução da França destruída pela II Guerra Mundial, parte deles tendo ido legalmente mas porventura a maioria tendo saído do país a salto, clandestinamente, munida do chamado passaporte de coelho, que obrigava a uma longa travessia do território espanhol a pé, em camiões de gado e em outros subterfúgios para escapar à vigilância da polícia espanhola, mancomunada com o regime fascista português, para evitar o êxodo lusíada para os arredores da capital gaulesa.
Os emigrantes portugueses instalavam-se, miseravelmente, nos bairros de lata de Champigny ou de Saint-Denis, sem condições de higiene ou de salubridade algumas, em precárias barracas sem água, sem electricidade, sem saneamento, como está amplamente visionado nas dramáticas fotografias do artista Gérald Bloncourt, grande amigo de Portugal (e de Fafe, em especial) e documentarista da emigração portuguesa dos anos de 1960 e 1970.

Foram estes compatriotas abordados pelos activistas portugueses em Paris (Vasco de Castro, Luís Cília e outros), no sentido de os convencer a alinharem nas greves e a serem solidários com as classes em luta. Sem sucesso. A sua reacção era obviamente de medo. Mal sabendo falar francês, mal instalados, desinteressados da política e do que se passava em redor, os nossos emigrantes queriam era que os deixassem trabalhar, para ganharem dinheiro para remeterem para as famílias em Portugal. Os emigrantes eram pouco participativos nesse movimento, até porque a sua situação era claramente precária, dado que a grande maioria ainda não possuía autorização de permanência em França. Os emigrantes portugueses eram não politizados, limitavam-se a querer trabalhar, como refere Fernando Pereira Marques. Por isso, as manifestações nos bidonvilles não tiveram eco. A situação obrigou mesmo 10 mil emigrantes portugueses a abandonarem Paris e a regressarem a Portugal, à espera que a situação acalmasse, o que se verificou no mês seguinte.

Devo confessar que, na minha infância, acabei por sofrer de alguma forma as incidências do Maio de 1968. Tendo terminado o ensino primário, com o pai emigrado havia cerca de uma década em França, acabei por não prosseguir estudos, na altura, devido à instabilidade e imprevisibilidade da situação em França. Só mais de um ano depois, e com a situação já devidamente normalizada, pude regressar aos bancos da escola e reatar a vida estudantil.
O Maio de 1968 foi um movimento de revolta quase efémera mas que deixaria marcas na posteridade. Como salientam alguns historiadores, do ponto de vista político e económico nada mudaria, até porque a direita ganharia novamente as eleições, sinal de que as greves e o cansaço se apoderaram dos franceses, sem transportes públicos, sem combustível, com o lixo acumulado nas ruas e com alimentos a escassear nos mercados.
Contudo, na mentalidade dos cidadãos algo estava a mudar e a dar frutos. Era o triunfo do amor, da nudez, dos direitos da mulher, do movimento hippie, da paz. Recordemos que 1968 era também sinónimo da Primavera de Praga e da oposição, nos Estados Unidos, à guerra do Vietname.
É dessa altura o aparecimento da mini-saia e da pílula, bem como dos festivais de música rock, como o de Woodstock, gigantesco, no ano imediato.
Nada ficaria como dantes, a partir de Maio de 1968!

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