Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A importância da narrativa na sala de aula

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Escreve quem sabe

2012-10-09 às 06h00

Cristina Palhares

Num dos corredores da minha escola num destes dias primeiros de aulas, uma professora comentava que pela primeira vez na sua aula de apoio à Língua Portuguesa, os alunos tinham ficado para lá da hora terminar. Ninguém tinha dado conta que a aula já há muito passara o seu tempo.

E porquê? Porque a partir de uma história de vida, de uma narrativa na primeira pessoa, a “matéria” foi sendo explicada e o tempo parou. Para aquela professora e para aqueles alunos o tempo parou na hora de aprender. Quantos de nós não gostaríamos de sentir e viver o mesmo?! Este é com certeza o fundamento de como as narrativas usadas em contexto de sala de aula se tornam momentos de grande aprendizagem. Lembremos novamente o espanto aristoteliano, aquele momento em que o aluno aprende porque compreende e em que o tempo não é importante. Porque tão bem sabemos que quando o “espanto” existe, existe também um sentimento de agrado, de motivação, de empenho, de atenção... De atenção.

É este o poder da narrativa. Dirigir a nossa atenção, focalizar no encadeamento do que vem a seguir, prever o que poderá acontecer e... esperar pelo desfecho final. Sem pressa... o tempo pode passar devagar. As emoções sobrepõem-se às razões. O espírito sobrepõe-se ao corpo. As razões e o corpo continuam lá, mas as emoções e o espírito, estes sim, estão em estado de espanto. De encanto. E o tempo não passa. O tempo deixou de ser o mais importante.

Já Roldão, em 1995, afirmava que as histórias constituem um meio de organizar o conhecimento, de estruturar o currículo, de captar a atenção dos alunos e de facilitar a comunicação e a apropriação de significados. Não interessa agora distinguir aqui os termos história e narrativa, sendo que os uso neste momento com um sentido similar. Interessa sim refletir na importância que as narrativas ou as histórias podem ter na sala de aula.

E de tal modo assim é que os grandes contadores de histórias, os grandes narradores, foram sempre grandes mestres. Relembro, sem querer outro significado para além do que aqui expresso, Cristo, um dos grandes mestres que usava parábolas, um veículo de “ensino curricular” que não tinha como fim último o ensinar, mas antes o levar a aprender. E a partir das suas parábolas, das suas histórias, Cristo esculpia as personalidades humanas. A aprendizagem de dentro para fora.

É este o poder da narrativa. Se entendermos as histórias de vida como narrativas na primeira pessoa, usá-las servirá o mesmo fim. E ao tomarmos consciência desta importância rapidamente conseguiremos apreender que muitas outras histórias, que não apenas na primeira pessoa, ser-virão também o fim último da educação, na opinião que parti-lho com Olivier Reboul: O que melhor exprime o saber (aprendido ou compreendido) está na capacidade de tirar prazer (que se alcança pela admiração).

O “espanto” de Aristóteles, o “prazer” de Reboul nascem, com certeza, do desenvolvimento de um grande talento - a capacidade de contar histórias: do mundo que nos rodeia, das relações que estabelecemos, dos alunos com quem partilhamos o nosso dia a dia. Contar histórias fará com certeza o tempo parar. E assim ouviremos expressões como esta, que têm e dão um significado especial à arte de ensinar: “- Aaaaah... já passa da hora, stora.” O espanto do tempo que já não é mais o mesmo tempo. O tempo de acabar deu lugar ao tempo de continuar... a aprender. Um bem haja à professora que comigo partilhou a “sua história”.

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