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A importância das Autarquias na promoção da Cultura!

Caro Professor!

A importância das Autarquias  na promoção da Cultura!

Ideias

2024-05-19 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. Ciclicamente, por uma razão ou outra mais ou menos plausível, essa ave rara chamada cultura vem ao de cima do discurso mediático, bem mais propenso às vicissitudes da política mais ou menos centrada nos governantes e nos partidos políticos.
Um recente programa televisivo abordava as questões relacionadas com o universo da cultura, nas suas variadas expressões, da música à literatura, do teatro às artes plásticas, do cinema ao audiovisual. Em todas as opiniões se referindo a absoluta necessidade de aumentar o orçamento para a cultura.
Um recado naturalmente para os sucessivos governos, sejam de que partido forem, pois nisso são irmãos gémeos, esperando que não caia em saco roto, como é tão normal neste país, em que as coisas habitualmente abrigadas no chapéu da cultura são tratadas como a última prioridade de qualquer programa político, o que se lamenta em absoluto, porquanto um povo culto é um povo mais activo, mais empreendedor, mais criativo, mais livre.
A cultura é indubitavelmente um acréscimo de humanidade e de liberdade para os homens e para as sociedades em que se integram. Basta ver a quantidade de vezes que os jornais televisivos abordam questões culturais. Quase se podem contar com os dedos de uma só mão e, quando acontecem, são relegadas para os minutos finais do telejornal e emitidos muito a contragosto… Claro está que não estamos a falar de canais televisivos profundamente minoritários, onde a cultura é respeitada e valorizada, como a RTP2 ou a RTP3. Gostaríamos que fosse abordada num universo mais generalista, como acontece com as coisas da política ou da bola, aqui em doses excessivas, que acabam por matar o pobre, como soe dizer-se.
É claro que falar-se de cultura é, já de si, um achado, tão menosprezada anda pelos órgãos de comunicação social e pela população em geral, anestesiada por doses cavalares de telenovelas e de futebóis, que não sabe há quanto tempo viu um filme no cinema, que já não se lembra da última peça de teatro a que assistiu, e que nunca mais acaba de ler aquele pequeno livro que começou há mais de um ano.
Mas as estatísticas e o pensamento dos últimos anos vão no sentido de se concluir que a cultura não é, nos nossos dias, algo que funcione apenas como adereço, como coisa supérflua, como desperdício irrecuperável. A cultura é considerada, justamente, um investimento, que movimenta já milhões de euros e que tem retorno, embora mais lento que outras actividades, como é natural. As indústrias culturais na Europa, por exemplo, representam já maior impacto no produto interno bruto que a têxtil ou a indústria automóvel, por mais incrível que possa parecer.
É reconfortante saber que o investimento cultural começa a ser reconhecido, pelas autoridades, pelos agentes culturais e pelos agentes económicos. A cultura tem de constituir uma aposta estratégica, do Estado e das autarquias, porque é aquilo que, a par da educação, pode contribuir para tornar os povos mais livres, mais conscientes, mais evoluídos, mais felizes e mais humanos.
Até porque, ao contrário do que supõem os imensos pretensos e incultos pragmáticos, para quem a cultura não passa de um vastíssimo regabofe despesista e sem pingo de importância, está demonstrado que a cultura tem um forte peso na economia europeia. Em Portugal, o sector contribui com 1,4% do produto interno bruto, sendo o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas. Por isso, deve passar a ser vista como uma prioridade para os governos dos países, e também para os responsáveis municipais. A cultura é para ser apoiada, dinamizada, subsidiada, porque é ela que eleva espiritualmente a humanidade. É a cultura que distingue os homens da animalidade. Os discursos contra a cultura, venham de onde vierem, não passam desse estádio de atraso e desse apego à barbárie...
Infelizmente, muito difundidos nos meios políticos e até em sectores que julgaríamos vanguardistas e imunes aos apelos da ignorância.

2. E já que estamos com a mão na massa, liguemos a cultura ao Poder Local Democrático, às autarquias. Como seria o nosso país, genericamente, sem o investimento autárquico na área da cultura?
Seguramente Portugal seria uma pobreza de país sem o apoio e os subsídios das autarquias à actividade cultural. Menos oferta, menos diversidade. Um país centralizado na capital, onde tudo acontece. Teatros de portas fechadas para milhares de espectadores. Felizmente que, pela dinâmica, pelas vistas largas, pelo empenhamento e pelo empreendedorismo da maioria dos autarcas sobretudo dos municípios, assistimos a projectos que reconstroem velhos teatros, requalificam preciosos palácios, promovem festivais e eventos culturais que dão nome às cidades e constituem mais-valias para as localidades onde se realizam. Bons exemplos, no conspecto nacional, fora das cidades metropolitanas, são Braga, Guimarães, Vila Nova de Famalicão, Fafe, Vila Real, Guarda, Viseu, Coimbra, Montemor, Sines, Figueira da Foz e tantas outras cidades culturais, pelo investimento unicamente das autarquias. A cultura é um facto que acontece por estas cidades, com a programação regular de actividades artísticas abertas à maior diversidade de púbicos e pela valorização dos espaços culturais.
Obviamente, como fafense, não posso deixar de me congratular pelo dinamismo cultural que ao longo das últimas décadas tem caracterizado o município, quer ao nível das infra-estruturas e equipamentos, quer da animação. Para uma cidade de média dimensão, como é Fafe, a sua actividade cultural regular tem sido reconhecida, às vezes, paradoxalmente, mais pelos que vêem o fenómeno do exterior, dando sentido àquela sentença que diz que “santos da casa não fazem milagres”… Todavia, numa cidade em que todas as semanas há acontecimentos culturais diversificados, este ano ainda reforçados pelo centenário do Teatro-Cinema e pelos eventos relacionados com os 50 anos do 25 de Abril, as populações só se podem queixar, se calhar, de si próprias e da sua crescente indiferença para tudo o que não seja televisão, telemóvel ou banho de sofá.
Finalmente, gostaria de concluir que foram o 25 de Abril e o Portugal Democrático que tornaram possível a democratização da cultura que, por estes anos, se tem multiplicado por todo o país. A maioria dos municípios já tem a sua biblioteca municipal, o seu museu, o seu auditório, o seu arquivo histórico, como equipamentos fundamentais. De igual modo, desenvolvem actividades de animação cultural dirigidas aos diferentes tipos de público, contribuindo para um país mais culto e mais civilizado, que nada tem a ver com o Portugal atrasado, ancilosado, triste e ultrapassado que se vivia há cinco décadas.
Os investimentos culturais feitos pelas autarquias locais por esse Portugal fora são um paradigma e a confirmação de que o Poder Local Democrático valeu a pena.
Em suma, está, então, na hora de os políticos e os fazedores de opinião se consciencializarem da importância fundamental e do peso específico deste importante sector para a economia e para a qualidade de vida dos cidadãos.
E já não é sem tempo.

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