Correio do Minho

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A incógnita

Derrota à francesa

A incógnita

Escreve quem sabe

2022-01-09 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

António Costa crê-se um governante de primeira linha, um legítimo estadista. Sonhos e ilusões que requerem séquito e coro, concordância acrítica e exercícios de demagogia de complexidade crescente. Nada lhe faltou no mandato inicial, que lhe caiu no colo, bem vistas as coisas, por cálculo furado de terceiros. Jerónimo o catapultou em primeira alocução, nessa noite eleitoral de 2015.
Beneficiou de tréguas à esquerda, firmadas à cabeça para quatro anos. Não primando a imagem pela elegância, embora faça jus ao que se passou, diríamos que cruzou o quadriénio com dois mastins dados ao bravo a centímetros das canelas – seguisse ele por linha esboçada e nada de feio lhe aconteceria.
E de sossegos fruiu à direita. Primeiro porque Passos não acertou no antídoto. Depois, porque Rio, que coxo vinha de seus, deu em martelar em fórmula bizarra e, ao invés de virar do avesso qualquer treta do mago da rosa, com letra tão contrária quão igual, resolveu apregoar a semelhança intrínseca dos dois esteios da nossa democracia. Afoga, Rio, as berrarias e os bota-abaixo da praxe; cava, Rio, novo curso para a Oposição – o do fluxo sensatamente paralelo, discretamente convergente para a mesma foz. Costa e Rio, quais Tigre e Eufrates! Uma mesopotâmia para encravar uma geringonça.

Conheceu desqualificação, desdém, chacota. Vinda de dentro, oriunda dos que sufocavam derrota própria com sanha acesa. E nunca lhes faltou palco. Vinda da turma socialista, que só com charivari e carregando no adjectivo furtava cabeça a capuz que sempre lhes foi reconhecido. Vejamos, quantas décadas leva o PCP a qualificar as políticas do PS como de direita? Vinda da imprensa em geral, que se em andor transportava Costa, o Regenerador, por pedras calcadas arrastava Rio, sumariando exaustivamente faltas de jeito, de fala, de ideia, de estratégia.
Lembremos, que não nos vem por prejuízo. Que ouvíamos a comentadores, a editorialistas, a pivôs de revistas da actualidade? Não tinha Rio de fazer oposição, mostrando soluções à direita, em vez de consumir tempo, inutilmente, assinalando congruências, revelando disponibilidade para pactos e reformas? E que geometria era a sua, enfim, ou puxava ao complexo, essa insensatez de afirmar o PSD ao centro, se por consabida convenção, nacional e europeia, o PSD é uma força política de direita? No limite, que no centro do Centrão se firmasse: por que razão haveria o eleitor português de preferir a cópia – Rio – ao original – Costa?
Em suma, a esquerda calava, Rio mostrava solicitudes, e mal ficava comigo se nenhuma menção fizesse ao Chega, ao IL, ao CDS, que sendo forças legítimas, pouco acrescentam ou diminuem ao que pudesse perturbar os sonos e os desfiles de Costa.

Dentro de semanas, cairá Costa, como caiu Medina?
É sabido que o desfecho de uma eleição pode ser ditado por um volte-face de últimos dias. Deveríamos escolher de modo informado, bem aferidos os argumentos fundamentais, mas decidimos por rotina, por preconceito, por qualquer parâmetro acessório, como o é a gasta etiquetagem direita-esquerda, com o que acarreta por simpatia em termos de conservadorismo-progressismo, exploração-distribuição. E não é estranho que haja quem insista que tudo o que concerne à esquerda é tendencialmente bondoso, funesto sendo o que à direita respeita.
Por décadas sonhou a esquerda com o que teve durante quatro anos. Teve-o, e malbaratou-o. Foi a CDU? Foi o BE? Talvez o PS não seja de esquerda, e aí, então, melhor seja escolher quem junte a cara com a careta.
A incógnita, não é quem ganha, mas o que nos obrigaremos a exigir de nós.

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