Correio do Minho

Braga, sábado

'A Jarra de Flores', por Liliana Pinheiro Gonçalves

Transtorno obsessivo compulsivo por compras: Oniomania

Conta o Leitor

2011-07-19 às 06h00

Escritor

(Quem disser que a vida é justa: ou está morto e se esqueceu do que foi a vida, ou está vivo e se esquece do que é a morte.)

Diana era uma rapariga frágil, distraída, porém, era ágil e sagaz. Sabia ocultar as outras características que a tornavam vulnerável, por isso era vista como uma rapariga forte.
O seu avô era a única pessoa que via aquilo que ela escondia.

Quando olhava para ela, via a criança que em tempos foi, que tinha saudades e que guardava cautelosamente no seu coração. Diana tinha também, os olhos pequeninos, cor de chocolate como o avô. Tinha ainda a sua teimosia e espírito de liderança.

Certo dia estava Diana desenhando junto do avô, quando este se levantou da cadeira pesadamente e encaminhou-se para ela, pediu-lhe o seu lápis, folheou o seu caderno de folhas brancas, encontrou uma das poucas que continuava intacta e começou a desenhar.

Diana tinha dúvidas quanto ao resultado dos sarrabiscos do avô, estava totalmente enganada. Sarrabiscos ou não, conseguia perceber-se o que estava ali desenhado - uma jarra com flores.
Diana ficou encantada com o desenho do seu avô. E qualquer pessoa que dissesse que era muito pouco provável, que com a idade do seu avô e com os seus problemas de visão, alguém pudesse desenhar algo compreensível, Diana desmentiria plenamente.

O Sr. Alberto voltou a sentar-se arrastadamente, com um ar sério disse: “- Aprende, que eu não duro sempre”. Terminou com um sorriso que escondia a tristeza do irrevogável sentimento de que a vida não tarda a acabar.
Diana vivia perto do avô. Diana cresceu, assim, acompanhando o percurso da doença do Sr. Alberto - os diabetes. Doença que aprendeu a odiar.

Ao longo do tempo que ela foi crescendo, foi apercebendo-se do quanto aquela doença era grave, principalmente as consequências que trazia, à vida do Sr. Alberto e à de todos os que conviviam mais de perto com ele.

Diana foi dando conta que o avô estava a piorar, pouco a pouco, e ficava cada vez mais frágil.
Já era um passado remoto, os tempos que o avô de Diana, tinha vigor que sobrasse para trabalhar nos campos; para cuidar dos animais e das plantas; para subir a escadas e para produzir vinho.

Já ia longe o tempo em que certo dia, o Sr. Alberto fez uma escada de pequenas dimensões, com as suas próprias mãos, com pedaços de madeira, e deu à sua neta, para que ela pudesse colher os cachos de uvas que não conseguia apanhar sozinha. Se bem que Diana sempre teve pavor de subir a escadas que não fossem aquelas bem assentes na terra.

O Sr. Alberto passava por uma altura muito difícil, até que chegou o fatal dia em que o querido avô de Diana - morreu.
Diana chegava da escola, seu pai esperava-a, com uma expressão carregada. Já não era uma criança, e ao longe, vendo o pai, sabendo que o seu avô estava internado numa situação crítica, até quase adivinhou a razão pela qual o seu pai estava a agir como se Diana fosse um prato frágil e delicado que a qualquer toque menos calculado ficasse fragmentado em cacos desolados.

Passaram muitas coisas na cabeça de Diana quando o pai lhe contou a fatídica notícia, tudo menos chorar em frente ao mesmo.
Tomou o seu lanche e foi para o quarto.

Não era a primeira vez que algo do género acontecia. Em tempos, quando seu primo morreu, Diana foi confrontada com uma terrível realidade.
Nesse momento teve que repetir dez vezes “O Né morreu” para que percebesse que nunca mais o iria ver, nem sorrir para ele, nem falar para ele, nem o abraçar, nem mesmo dizer “olá”, apenas dizer “Adeus”.

Sentou-se no chão, encostada à cama, e foi aí que recordações lhe atormentaram o pensamento.
Recordou o homem que era o seu avô. Era um homem frio, talvez até cruel, aos olhos de algumas pessoas. Mas como poderia um homem ser assim tão cruel, se tinha tanto amor à sua neta? Dizia palavrões, mas era dessa forma que mantinha muita gente na linha, e assim o respeitavam. Mas sempre foi um homem respeitador e de fé. Passou por muito.

Diana sabia que iria ter saudades do seu avô, das suas histórias, das suas lengalengas, dos seus ensinamentos, da forma como lhe pedia que pedisse à sua mãe para lhe dar um pedacinho de chocolate, ou que convencesse a sua mãe a deixa-lo levar uma alheira para que sua avó cozinhasse e ele pudesse comer.

Teria saudades dos tempos em que jogara cartas e ao pião com o avô. Até teria saudades de vê-lo puxar a dentadura para frente dos lábios numa careta estranha para assustar Diana.
Era difícil acreditar que não iria ver mais o seu avô, tal como foi difícil acreditar que nunca mais iria ver o seu primo.

Rezava para que o seu avô não estivesse morto. Por muitas mais vezes que seu avô lhe dissesse que não ia durar sempre, Diana pensava que ia durar sempre.
Passaram os anos e ela continuava a crescer. Ao longo do tempo deixou de gostar de ir ao cemitério ver a triste realidade de que seu avô estava lá, tudo o que ele era, estava debaixo do chão, pelo menos o corpo dele estava, ou o que restava dele.

Diana aprendeu a desenhar, desenhava bem, pelo que lhe diziam. Aprendeu a escrever bem, pelo menos pelo que lhe diziam. Aprendeu música, e bem pelo que lhe diziam. Às vezes pensava o quanto gostaria que seu avô estivesse ali, que visse como ela cresceu e o que ela tinha construído.

Alguns professores diziam que Diana tinha maturidade que ultrapassava a idade dela, aconselhavam-na a viver a vida, e deixar que ela fosse ao seu ritmo normal. Algumas pessoas diziam: “É uma menina de idade ao contrário, tem 41 anos e não 14”.

Numa despensa em sua casa estavam guardados todos os livros escolares tanto do seu irmão mais velho como também de Diana. Um dia foi procurar livros que a pudessem ajudar a realizar um trabalho escolar. Aí encontrou material do seu tempo de escola primária, e deteve-se a sonda-lo.

Esfolheou cadernos, e encontrou antigas redacções de que se recordava. Ditados em que continha erros que hoje considerava tão estapafúrdios. Encontrou um caderno onde desenhava, esfolheou por alto e voltou a pô-lo na prateleira, de capa para baixo. Ao ver a parte de trás desse caderno, reparou no que tinha lá escrito: “Desenhos da Di e do avô”.

Voltou a pegar imediatamente no livro e acariciou a parte de trás do seu caderno. Voltou a esfolheá-lo e encontrou o desenho do seu avô - a jarra de flores.
O desenho que Diana tanto gostava e idolatrava. Naquele pedaço de papel estava uma memória, ali passaram os dedos do seu avô. Ali estava um pedaço da vida dos dois, uma vida razoavelmente boa, onde Diana era pequena e não tinha grandes responsabilidades, onde podia sorrir e acordar tarde, onde o Sr. Alberto tinha força para andar e trabalhar como sempre gostou, e tinha memória apurada para contar velhas histórias à neta.

Diana deixou cair uma lágrima em cima da folha, que regaria para sempre aquelas flores mantendo-as vivas. Uma lágrima que tal como quando acabou de escrever e ler esta história, não pôde conter.

Não foram felizes para sempre, porque o sempre não existe na vida, só existe depois da morte. Mas dizem que a felicidade é feita de momentos, momentos esses que só nos apercebemos que foram felizes porque existem os momentos menos felizes. Então, por fim, concluímos, que talvez aquela jarra de flores, foi, feliz para sempre.

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