Correio do Minho

Braga, sábado

A Lei do Escuteiro no pensamento de Baden-Powell: artigos 3.º e 4.º

Pavilhão do Atlântico distinguido com o MasterPrize em Los Angeles

Escreve quem sabe

2015-11-20 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Se me perguntassem qual é no mundo o vício dominante eu diria: “o egoísmo”.
Baden-Powell, in Auxiliar do Chefe Escuta, p. 95

Ainda sob o efeito da onda de choque, que se abateu sobre todos os cidadãos de França, da Europa e do Mundo, tendo como epicentro Paris, berço da democracia moderna, a partir da trilogia: Liberdade, Igualdade e Fraternidade que, desde 1789, ilumina o percurso de cada cidadão, mas, também, porque na cidade da Luz se sucederam três inenarráveis tragédias, que provocaram 129 mortos e 352 feridos, cerca de 80 com muita gravidade.
Em nome de nada, nem sequer de um punhado de moedas, estes sete ou nove terroristas, tornaram-se os “carniceiros de Paris”, destruindo os sonhos de milhares de famílias, semeando o terror e o ódio em nome de um egoísmo sórdido.
Infelizmente, este contexto vem reforçar, ainda mais, a importância dos dois artigos da Lei do Escuteiro destinados a esta crónica, que se focalizam nas relações com os outros à luz dos valores do serviço gratuito e da amizade:

3º artigo - O Escuta é útil e pratica diariamente uma boa ação1

«Como caminheiro o teu objectivo supremo é SERVIR. Sempre se pode confiar em que estarás pronto a sacrificar tempo, comodidades ou, sendo preciso, a própria vida, pelos outros.
“O sacrifício é o sal do Serviço do Próxi-mo”.»2
Este artigo convoca o sentimento do dever do Serviço gratuito ao próximo, promovendo o seu bem-estar, ajudando-o a superar as suas dificuldades, sentindo com ele os dissabores que a vida nos dá.
Este “modo de vida”, que se vai interiorizando no coração da criança e do jovem, através da prática de, pelo menos, uma “boa ação” diária, tem que ser vivido com o espírito de Madre Teresa da Calcutá: «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá» na certeza que se «não podemos fazer grandes coisas; apenas pequenas coisas com muito amor», desta forma, quando for adulto saberá que «temos de ir à procura das pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade». Assim, aos poucos, o jovem escuteiro vai-se tornando um verdadeiro cidadão solidariamente ativo em prol do bem comum.

4º artigo - O Escuta é amigo de todos e irmão de todos os outros Escutas

«Como Caminheiro reconheces que os outros, são como tu, filhos do mesmo Pai e menosprezas quaisquer diferenças de opinião, casta, crença ou nacionalidade que possa haver entre vós. Recalcas os preconceitos e descobres-lhes os méritos; os defeitos qualquer pateta lhos sabe criticar. Se praticares esta caridade para com os naturais doutros países e contribuíres para a paz e bom entendimento entre as nações, realizas o Reino de Deus sobre a terra.
«Todos os homens são irmãos»3
Sábias palavras com que o fundador do escutismo explicou este artigo aos caminheiros, em 19224, num tempo em qua a Europa ainda fazia contas aos estragos da Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, tendo-se os combates prolongado até à assinatura do armistício de Compiègne, a 11 de novembro de 1918, mas cujo tratado de paz só foi assinado a 28 de junho de 1919, na sala dos espelhos do palácio de Versalhes, e que a atualidade ensurdecedora as reveste com o manto da pertinência face aos hediondos massacres de Paris.
Este artigo leva o escuteiro a tomar consciência que as diferenças entre cada um de nós são fatores de enriquecimento, percebendo que o bem-estar dos outros contribui para o nosso próprio bem-estar, tal como cada um de nós contribui para o bem-estar de todos e de cada um deles, e tomando consciência que a amizade é o elemento fundamental neste relacionamento, é ela que potencializa e fortalece a relação de cooperação e de complementaridade, construindo a felicidade individual e coletiva.
Como ressoam bem fundo nas nossas almas as palavras de Saint-Exupéry: «se és diferente de mim, irmão, em vez de me prejudicares, enriqueces-me», ou ainda «ser homem, é precisamente ser responsável. É sentir que, colocando a sua pedra, se contribui para a construção do mundo». Só acolhendo no nosso coração estas palavras, o horror de Paris não alimentará novos ódios nem outras vinganças, mas sim uma compaixão sedenta de justiça.

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