Correio do Minho

Braga, terça-feira

'A lenda do tsuru'

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2013-07-24 às 06h00

Escritor

Vítor Costa

O miúdo irrequieto saltitava de alegria pelo caminho de regresso a casa enquanto o sol começava a perder todo o seu esplendor e intensidade. Era mais um final de tarde e o miúdo regressava da escola, dirigindo-se como era habitual ao barraco do seu avô, perto do lago.
Atravessou a ponte a correr, ansioso por partilhar as suas excelentes notas na escola. Passara com distinção a todas as disciplinas, o seu avô ia ficar orgulhoso. E além disso tinha agora um longo período de férias de Verão e o avô tinha-lhe prometido muitas aventuras.

Abrandou o passo e parou junto à entrada. O avô estava debruçado a dobrar papel, algo que ele prometera em breve ensiná-lo. Sentou-se na cadeira ao seu lado, admirado pela destreza com o que o avô dobrava um pedaço de papel liso. Observou durante alguns momentos em silêncio até a curiosidade levar a melhor.
- Qual vai ser a figura que vai criar desta vez avô? - Atreveu-se a perguntar.
O avô parou e piscou-lhe o olho.
- Espera um pouco, já vais ver. Os olhos dele arregalaram-se perante as palavras do avô e esperou ansiosamente até que o seu avô terminasse.
- Pronto, aqui está. - Disse o avô, oferecendo-lhe o origami.

As suas mãos tremiam ao acolher aquela figura bela e perfeita nas suas mãos. Mal conseguia conter o nervosismo e o entusiasmo, o seu avô nunca lhe oferecera um origami. Desceu da cadeira e abraçou-o com todas as suas forças.
- Uma tartaruga? Adoro tartarugas avô, obrigado!
- Nestas férias vou ensinar-te a fazer todas estas figuras de origami que estão espalhadas por este barraco. - Afirmou o avô, abrindo os braços. - Já está na altura de aprenderes a dobrar papel. E no fim vais dobrar papel melhor do que o teu avô.

O miúdo aplaudiu a ideia. Já há muito tempo que andava a pedir ao avô que lhe ensinasse a dobrar papel como ele. E ficara particularmente fascinado pelo tsuru, a figura que representa uma cegonha.
- Avô, conta-me de novo a história do tsuru?
O avô arrastou a cadeira para junto dele e sentou-se. O seu olhar pareceu divagar pela janela aberta.
- Conforme já tínhamos falado, o tsuru é uma sagrada ave japonesa. Há muitas lendas em volta desta figura, mas há uma em particular com uma importante lição de vida. Sadako era uma menina que nasceu em Hiroshima e tinha dois anos quando os americanos lançaram a bomba atómica sobre a cidade dela. Ela vivia distante do epicentro do local onde a bomba caiu, mas na sua fuga fora apanhada pela chuva radioactiva. Ela cresceu normalmente, até que aos doze anos fora-lhe diagnosticada uma leucemia. Deram-lhe apenas um ano de vida. E foi quando já estava no hospital que Sadako recebera um presente da sua melhor amiga, Chizuko. Chizuko dera-lhe um tsuru e contara-lhe que existia uma lenda em que se alguém dobrasse mil tsurus, essa pessoa teria direito a um desejo. Sadako entusiasmada pela ideia de ficar curada, começou a fazer os tsurus. E apesar de debilitada, continuou a fazê-los até ao seu último fôlego. Infelizmente não conseguiu completar os mil tsurus, mas ela nunca desistiu. E os seus amigos, em sua homenagem, acabaram por fazer os tsurus que faltavam para que fossem enterrados com ela.
- Será que se ela tivesse conseguido completar os mil tsurus, teria direito ao desejo dela? - Inquiriu o miúdo.
O avô sorriu e agachou-se.
- Vamos acreditar que sim. Ela nunca desistiu e continuou a lutar até ao fim. Essa é a lição que devemos seguir. - Colocou as suas mãos por debaixo das dele e olhou-o nos olhos. - E a tartaruga que tens nas tuas mãos também tem um significado muito especial, tens de prometer que vais andar sempre com ela.
- Prometo avô. Qual é o seu significado? - Perguntou, curioso.
- A tartaruga é uma figura muito poderosa, simboliza a longevidade.

O miúdo ficou pensativo por alguns momentos. Tinha aprendido essa palavra na escola e já há algum tempo reparara que o seu avô parecia cada vez mais debilitado. Talvez a história da tartaruga fosse igual à do tsuru, pensou ele.
- Isso quer dizer que se o avô dobrar muitas tartarugas vai viver para sempre?
O avô pareceu ficar sem resposta e desviou o olhar. Ergueu-se e levou o neto para o exterior. Uma ligeira brisa inclinava a vegetação envolvente e a lua cheia pintada no horizonte anunciava o definhar de mais um dia.
- Ninguém é eterno. - Respondeu finalmente. - Tal como aconteceu à tua avó e aos teus pais, um dia também terei de partir.

O sorriso que até então estivera presente no rosto do neto desaparecera e cedera o seu lugar às lágrimas.
- Mas tu não podes deixar-me avô, por favor não digas isso. - Pediu ele, soluçando. - Eu não tenho mais ninguém.
O avô tomou-o nos seus braços e confortou-o.
- Eu nunca irei abandonar-te, estarei sempre a olhar por ti, esteja onde estiver.

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