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A liberdade de ensinar e o direito de aprender contra o extremismo

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A liberdade de ensinar e o direito  de aprender contra o extremismo

Ideias

2020-10-19 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Samuel Paty, de 47 anos, era professor de História e Geografia em Paris. Foi barbaramente assassinado depois de ter mostrado, como lhe competia, algumas caricaturas de Maomé durante uma aula de Cidadania. A iniciativa enquadrava-se no ensino da liberdade de expressão e de pensamento e, segundo todos os relatos, o professor teve o cuidado de explicar que iria fazê-lo, convidando a sair da aula os estudantes que pudessem sentir-se ofendidos com a visualização das imagens. Um grupo de fanáticos religiosos ficou indignado e fez ameaças ao professor que seriam tragicamente concretizadas alguns dias depois.
A notícia deixa-nos chocados, consternados e enraivecidos. Mais do que matar um professor que apenas cumpriu a sua função, estes fanáticos religiosos quiserem pôr em causa a liberdade de ensinar e o direito de aprender enquanto princípios fundamentais da civilização em que vivemos.

Questiona-se, justamente, se este homicídio não põe em causa a nossa liberdade. Questiona-se, justamente, se não condiciona a obrigação dos outros professores continuarem a educar para a liberdade e a tolerância. Questiona-se, justamente, se não condiciona os valores civilizacionais em que acreditamos. Questiona-se, justamente, se não demonstra a impossibilidade de convivência da religião islâmica com os valores democráticos, laicos e republicanos da nossa sociedade.
São perguntas que fazem sentido. Aliás, todas as perguntas fazem sentido exceto quando só estamos disponíveis para ouvir a nossa própria resposta.

Em 1999, nos Estados Unidos da América, um casal homossexual foi brutalmente assassinado por dois vizinhos fundamentalistas cristãos. Acreditam que a homossexualidade contrariava os seus princípios religiosos.
Em 2011, na Noruega, um fanático cristão assassinou brutalmente 77 pessoas, a maioria das quais jovens que participavam num encontro da juventude do Partido Trabalhista. Pretendia impor os valores do cristianismo e protestar contra a sociedade tolerante e a igualdade de direitos das mulheres e das minorias.
Em 2016, nos Estados Unidos da América, um fanático islâmico assassinou brutalmente 49 pessoas, a maioria jovens homossexuais, que se encontravam numa discoteca. Pretendia protestar contra a intervenção americana na Síria.

Em 2019, na Nova Zelândia, um fanático cristão assassinou brutalmente 51 pessoas que se encontravam numa cerimónia religiosa na Mesquita Al Noor em Christchurch. Pretendia demonstrar a supremacia branca e defender a expulsão dos muçulmanos.
Em 2020, em Portugal, o Ministério Público constituiu 37 arguidos neonazis por vários crimes de ódio envolvendo grande violência, incluindo tentativas de homicídio contra negros, muçulmanos, homossexuais e comunistas.
A seleção não é exaustiva, mas é, seguramente, ilustrativa daquilo que temos vivido ao longo dos últimos anos. A imagem que construímos acerca do terrorismo religioso é fortemente determinada pelas notícias que nos servem, pelas reações assimétricas que despertam e, naturalmente, pela ameaça que percecionamos para cada um dos atos. A própria memória que temos dos diferentes crimes e atentados terroristas é influenciada por fatores vivenciais, emocionais e identitários – se formos cristãos, lembramo-nos melhor da tortura de cristãos numa igreja do Sri Lanka do que do massacre de muçulmanos numa mesquita na Califórnia.

Todos estes crimes bárbaros têm em comum a intolerância baseada em crenças fanáticas de teor religioso ou étnico-racial. O denominador comum não é a religião cristã, judaica ou islâmica; nem é a cor de pele; nem é a ascendência ou a nacionalidade; o denominador comum é a irracionalidade dogmática do fanatismo e da intolerância.
Voltemos a Paris. Mais do que matar aquele professor, os fanáticos da barbárie de Samuel Paty pretendem condicionar a nossa liberdade e ameaçar a nossa civilização. Querem impedir a sociedade de ensinar aos jovens aquilo que precisam de saber para se tornarem construtores ativos e responsáveis de uma sociedade livre e aberta. Querem também impedir o direito dos jovens a acederem a uma educação completa que estimule a racionalidade, a análise crítica e o respeito pela diversidade que compõe a natureza humana, independentes das crenças e dos conceitos dos seus pais.

E como fica a nossa liberdade depois disto? É óbvio que o medo nos condiciona. Mas foi precisamente pela coragem que se tornaram livres muitos daqueles que durante séculos viveram condicionados por homicídios e ameaças de morte.
Estes crimes hediondos recordam-nos que há um longo caminho a percorrer na construção civilizacional de uma sociedade mais inclusiva e respeitadora. Um caminho que requer persistência, resiliência e racionalidade. Um caminho que exige intransigência com os fanáticos. Um caminho que convoca à participação de todos.
Lá, como cá, não deixaremos que ninguém condicione a liberdade de ser, a obrigação de ensinar e o direito de aprender. A barbárie combate-se com civilização, o medo derrota-se com coragem, o ódio vence-se com amor e a liberdade conquista-se com determinação, respeito e tolerância.

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