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A liberdade, o voto e a rua

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A liberdade, o voto e a rua

Escreve quem sabe

2024-04-16 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Estamos a escassos dias de comemorar 50 anos da revolução de abril, data a que também chamamos “dia da liberdade”. Foi de facto nesse dia que nos libertamos de um regime político que limitava muitos dos direitos que se consideram fundamentais para a existência de liberdade, tais como as do respeito pelos Direitos Humanos consagrados universalmente, as do direito à manifestação, reunião e associação, as do direito à informação livre, ou a da simples liberdade de circulação de pessoas. Os países democráticos não se identificam apenas porque realizam eleições. Há eleições na Rússia, Bielorrússia, Turquia, Irão, India, China ou Venezuela, para citar alguns, países que não podemos considerar como Democracias, num conceito ocidental, pois todos sabemos encontrarem-se sob domínio de partidos de poder absoluto e com líderes que se impõem continuamente no poder, protegidos por militares instalados e legitimados por outros Órgãos de Poder que controlam.
Liberdade. Os jovens não têm uma perceção sentida do que significa viver em liberdade porque não viveram numa sociedade limitada ou arreda das liberdades já referidas. Não são únicos. Há muitas memórias esquecidas e outras que entendem a liberdade á sua maneira, ou a maneira de quem lhes lava a mente. Há cada vez mais cidadãos a não se aperceber que o sistema político de Democracia não predomina na governação das Nações e que há cada vez mais quem dela se afaste. A liberdade e a Democracia incorporam em si mesmo os riscos de suicídio político, porque permitem escolhas que atribuem poderes a quem visivelmente declara que quer mudar o próprio sistema, ou seja a Democracia. O voto nos partidos antirregime não acontecem apenas por desinformação, manipulação ou masoquismo dos eleitores, mas porque aqueles sentem que os dirigentes eleitos que ajudaram a eleger não conseguem suprir as dificuldades do seu dia-a-dia, nem lhes abrem a esperança de um futuro melhor. Indignados ou revoltados atribuem as culpas das suas desventuras aos políticos que lideram as instituições políticas e administrativas do país pela sua incompetência ou interesses que desconhecem e desconfiam. A política aparece-lhes para sua avaliação apenas em tempo de eleições, onde cada um diz o pior dos seus adversários políticos, atribuindo-se a si todas as capacidades de fazer, situação que vêm muitas vezes repetida nas fatigantes disputas parlamentares. Aqui o mais importante passaram a ser as contas, em vez dos objetivos e princípios políticos a seguir. É verdade que isso é muito importante pois a Democracia não se dá bem em períodos de resseção económica. De facto o povo pensa primeiro em função dos seus bolsos e só depois no que envolve os seus direitos, mas este pensamento é redutor e acaba por tapar coisas importantes como a da liberdade. Encontramo-nos a viver tempos economicamente frágeis, iniciados na crise financeira da década passada, passando pelos efeitos que a Pandemia aportou, designadamente a subida da inflação e dos juros, até à instabilidade geoestratégica no domínio que hoje assistimos entre o Ocidente e a Ásia. Apesar disto sabido, a culpa é facilmente atribuída aos excessos de liberdade em Democracia, exemplificadas nas demagogias da igualdade utópicas, ou nas prioridades dadas a causas fraturantes de minorias, ou da suposta invasão de migrantes que ameaçam os valores que formaram a nossa sociedade. Há na verdade maus exemplos, mas muito disto é facilmente manipulado no novo mundo digital, transformando-se as exceções, em regra. Tudo isto faz alterar o sentido de voto de milhões. As mudanças que assistimos em Portugal e no Mundo no crescimento de partidos nacionalistas e populistas é uma realidade e preocupação, situação política que justificaria o reposicionamento tático e político dos partidos tradicionais em democracia, aqueles que têm proporcionada ao Mundo e à Europa uma prosperidade e paz há mais de meio século. Aconselharia estes partidos a optar mais por atitudes de aposição, em substituição das de oposição. Infelizmente não antevejo mudança estratégica na forma como os partidos fazem política em Portugal. A cegueira na forma de lidar com os partidos adversários, ou de fazer oposição, mantem-se como há dezenas de anos. A cartilha é sempre a mesma: Todos são maus, exceto nós; Se dermos apoio a quem a Democracia colocou no poder, estamos a renegar as nossas propostas e ideias e a apoiar as deles; Enfim! O povo está cansado deste tipo de atitudes. O voto em Democracia não serve, ou não deveria servir, apenas para a escolha de quem governará, nem podem ficar cativos por distinções menores de expressão legislativa ou de táticas ideológicas nos inescrutáveis programas políticos. A estes partidos de maioria democrática pede-se-lhes que ousem pensar mais Politica, em vez de perderem tempo em inutilidades de quem tem mais força nos comentaristas de tv.
O tempo hoje é mais rápido, com a informação e desinformação a espalharem-se em segundos por milhões e milhões de seres que as assimilam e engrossam as opiniões dos insatisfeitos. São as novas ruas do protesto. O protesto continuará a mudar politicas e a rua continuará a ser um dos seus palcos de eleição.
É fácil alimentar a demagogia na rua. Às manifestações na rua das Associações Sindicais, habitualmente controladas pelos partidos mais à esquerda, juntar-se-ão agora as dos movimentos e organizações inorgânicas e as dos partidos da direita radical. A rua é fácil de utilizar por minorias que erradamente se fazem passar por maiorias. A rua é a melhor escolha de protesto porque dificulta a vida de todos. A rua ameaça substituir a escolha do voto. Os partidos radicais não terão receio em enfrentar diretamente os partidos que ainda respeitam as liberdades dadas pela Democracia. Não será preciso esperar muito tempo. O ano de 2024 verá multiplicar os protestos de rua.
Receio que o partido democrata que se assumiu como líder da oposição se sinta tentado a dar força à rua. Pela Democracia, espero vir a estar errado. A liberdade é frágil. Cuidemos bem dela agora e no futuro.

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